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quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Em Busca Da Inspiração Perdida - Parte I

Era uma noite como outra qualquer e lá estava eu, esticada em minha cama, as janelas do quarto escancaradas e o ventilador de teto ligado no máximo em uma vã tentativa de espantar o calor ridiculamente excessivo dessa época do ano.

Não conseguia dormir. Olhei no relógio, passava das quatro da manhã.

— Ah. Como eu adoro passar calor — resmunguei enquanto levantava da cama e buscava em minha estante alguma coisa para ler — Hum, poderia ir tomar um banho gelado, talvez isso me fizesse bem — continuei dizendo, talvez para o desenho da Princesa da Babilônia que me espiava da capa do livro do Voltaire jogado em cima do meu criado-mudo, enquanto caminhava em direção à porta.

— Nevermore! — gritou alguma coisa às minhas costas.

Nevermore.

Sim, isso era, afinal, um som muito natural de se ouvir às quatro horas da manhã em meu apartamento.

Ainda se fosse no alto de uma torre sombria, durante uma noite escura, tempestuosa e gelada, ouvindo as ondas do mar chocarem-se com fúria nas pedras lá em baixo e lendo, à luz de uma única e parcialmente derretida vela, Edgar Allan Poe, vá lá.

Mas em uma madrugada de calor infernal no oitavo andar de um prédio amarelo e cor-de-rosa erguido há uns vinte e poucos anos num bairro afastado da cidade de São Paulo?

Sim, muito natural.

Virei-me lentamente, sem saber exatamente se queria ou não saber o que diabos teria gritado “Nevermore!” do beiral da minha janela.

E qual foi o meu espanto, então, ao ver um belíssimo pássaro vermelho e dourado com o rabo de lindas plumas coloridas e um bico curvo de marfim a me observar com olhos negros estranhamente opacos emoldurados por óculos de aro-de-tartaruga empoleirado entre as grades da minha janela.

Não que eu estivesse exatamente esperando um corvo negro caindo aos pedaços pousado em cima de um busto de pedra, mas...

— Nevermore!

Bem, com certeza aquilo deveria ser ainda mais natural.

— Olá — comecei eu, e parei. Ótimo, já estava começando a falar com pássaros bizarros surgidos sabe-se lá de onde empoleirados sabe-se lá por quê no beiral da minha janela.

Eu devia começar a fazer análise.

— Hã! Quê? Ah! Olá! — respondeu o pássaro num pulo, piscando assustado e olhando em volta.

— Ah...

— Oh, puxa, que coisa, dormi no serviço de novo! — exclamou a ave abrindo as enormes asas e se ajeitando novamente — Perdoe-me, cara Carolina, mas, sabe como é, vida de Fênix não anda fácil nesses tempos modernos, a gente anda sempre pra lá e pra cá mandando mensagens e salvando vidas e ninguém acredita que a gente existe de verdade e a gente tem que se explicar e fazer e acontecer e na hora de alguém dizer alguma coisa a respeito nunca dizem “ah, foi a Fênix que me ajudou”, não, é claro que não; é sempre o herói, a princesa, o mago ou qualquer um desses humanos imbecis quem salvou o mundo e merece todas as honras e a Fênix, quem é essa tal Fênix?, esses bichos nem existem de verdade, é tudo de mentirinha, você ainda acredita em conto-de-fadas?, ah, mas que coisa, aí eu fico tão cansada, não tenho tempo nem para comprar umas lentes de contato, e... — parou para tomar fôlego e olhou para mim com olhos lacrimosos — Ah, tudo o que eu queria era poder ser um corvo preto.

Pisquei, aturdida com aquela enxurrada de palavras saídas do bico da tal Fênix.

— Hum — comecei eu. Não tinha tanta certeza de que deveria encorajá-la a falar de novo, a mim parecia ser ela um daqueles tipos de pessoas – ou aves – que preferia monólogos ao invés de diálogos. Em todo o caso, minha curiosidade falou mais alto do que o meu amor pelos meus ouvidos, e continuei — Então você - o senhor - a senhora - estava dormindo...?

— Ah, estava, sim! Viagens longas me deixam por demais cansada, sabe? Vai ver você não reparou porque eu desenvolvi uma técnica – rê rê rê não conta isso pra ninguém se não eu vou acabar demitida – de tirar uns cochilos com os olhos abertos, sabe, coisa bem fácil quando você é uma Fênix maravilhosa como eu e pode fazer praticamente qualquer coisa, mas, então, se descobrirem isso eu posso perder fácil o meu emprego, e... Ah! É! O meu emprego! É claro que eu não vim até aqui à toa, tenho coisas a lhe dizer! Puxa vida, que grande charlatã eu sou!

Ah. Ela tinha coisas a me dizer, então. É claro que tinha. Várias. A questão era, será que eu queria mesmo escutar?

— Eu já estava perdendo o fio da meada, você viu só como eu sou? Desculpa, nem todas as Fênix são assim, é que eu ando meio atarefada, sabe, e—

— Você disse que tinha coisas do seu trabalho a me dizer... — interrompi-a.

— Ah, é verdade! Então — disse, retirando um pedacinho amarelado de papel do meio de suas penas e começando a lê-lo — “Olá, Carol. Venho por meio desta (e espero do fundo do meu coração que esse estrupício penado consiga entregar-lhe esta mensagem...” Ei, eu não sou um estrupício penado! Sou uma grandiosa e imponente fênix, um animal mitológico muito raro e em extinção e...

— Hum, talvez você pudesse me entregar o bilhete...? — tentei.

— É, talvez eu até pudesse, mas acho que estrupícios penados não conseguem sequer entregar bilhetes para as outras pessoas, ou será que conseguem?

— Na verdade eu acho que conseguem, sim.

— Ora! — disse a Fênix, estalando o bico, amarrando a cara e entregando-me de muito mal gosto o tal pedaço de papel amarelado.

“Olá, Carol.

Venho por meio desta (e espero do fundo do meu coração que esse estrupício penado consiga entregar-lhe esta mensagem) avisar-lhe que uma Inspiração de cabelos azuis vestida com roupas coloridas e óculos escuros vermelhos foi encontrada jogada, completamente bêbada, em uma sarjeta da cidade de Roshgrangeon por um guarda decididamente mal-encarado que resolveu trancá-la em uma das duas celas da Nem Tão Grande Assim Prisão Quase Nunca Utilizada de Roshgrangeon. Como soube que sua Inspiração andava desaparecida e as características daquela encontrada assemelham-se muito com as dela, imaginei que talvez você quisesse vir procurá-la. Estou no momento em busca de algumas ervas mágicas na Grande Floresta Verde de Gorgafroom, que faz divisa com Roshgrangeon, qualquer coisa entre em contato.
Fique em paz.

Profeta Zé Apocalipse.”

— É — pensei, ao terminar de ler o bilhete — Acho melhor ir buscar minha toalha.

(Continua, obviamente. Quero dizer, pelo menos eu espero continuar, encontrando minha Inspiração onde o Profeta Zé Apocalipse disse que ela poderia estar.)

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Tutorial de Como Matar Uma Mariposa Gigante

Estávamos nós, eu e Thiago, calmamente sentados no sofá da casa da minha avó em Águas de São Pedro, altas horas da madrugada, assistindo ao Novo Tele Curso – que, aliás, é realmente muito novo, diga-se de passagem; as placas dos carros que passavam na gravação ainda eram amarelas, os ônibus eram brancos com uma linha vermelha no meio e as pessoas usavam aqueles penteados cheios lindos do começo dos anos 90 e aquelas calças de cintura alta coloridas – quando, de repente, eis que essa que aqui vos escreve nota alguma coisa muito preta e muito nojenta delicadamente (?!) pousada no vidro da janela.

— Thi... Aquilo ali é uma barata ou uma borboleta? — perguntei, temendo a resposta.

Como todos bem sabem, eu tenho um certo, hum, como poderia dizer?, receio de borboletas.
Na verdade, não é bem um receio.
É medo, mesmo.
Pavor.
E não tem explicação nenhuma pra isso, exceto que minha avó também tem.
Já me disseram que, de acordo com a psicanálise, pode ser que esse meu pé atrás em relação às borboletas (escrever aqui “meu pavor de” seria mais correto, mas faria com que me sentisse idiota, então, deixa pra lá) e qualquer coisa que voe de maneira geral seja porque eu tenho inveja da liberdade que esses animais têm por poderem voar.
Talvez.
Mas se voar for mesmo só uma questão de errar o chão, então...
Ah, deixa pra lá.
Voltando ao que aconteceu.

— Thi... Aquilo ali é uma barata ou uma borboleta?

— Acho que é uma borboleta... ai, não, acho que é uma mariposa!

Foi o tempo de processar a palavra “mariposa” e ligar o nome ao bicho que os dois corajosos urbaninhos puseram-se de pé num pulo e foram refugiar-se no extremo oposto da sala, quase que atrás da mesa.

— E agora? Você vai matar? — perguntei, em meu desespero crescente.

— Matar isso aí? Ai. Tem SBP? Ai.

Bom ter um namorado que tem tanto medo de mariposa quanto eu.
Lá foi a garota do cabelo roxo desbotado em busca da salvação e do alívio que se materializavam em um vidro de SBP.

— Olha, tá aqui. E o pano. — eu disse, entregando-lhe as armas, assumindo uma expressão de “eu confio que você vai voltar vivo” digna de esposa de soldado em véspera de batalha e tratando de sair rapidinho dali.

Pobre Thiago. Foi-se chegando de mansinho ali perto da janela, entrincheirando-se atrás do sofá, as armas em punho, uma expressão de determinação no rosto. Engatilhou o vidro de SBP e disparou uma, duas, três vezes, dando um passo para trás a cada vez que a mariposa esboçava qualquer sinal de tentar se mexer.

— Ô Thi... acho que você tem que espirrar mais em cima dela, não? — balbuciei do meu esconderijo na cozinha.

— Tô tentando!! — disse ele, e espirrou uma quarta vez. Oh, céus. Para quê. E não foi que a mariposa maldita resolveu levantar vôo?

Não deu nem uns três segundos e eu já estava escondida atrás da porta da lavanderia, com um cachorro poddle preto com cara de sono a me observar desaprovadoramente e um sentimento nada propício de que não deveria ter deixado meu pobre namorado lutando sozinho com aquele monstro.
Cadê sua coragem, Carolina!
Juntei minhas forças, ou o que sobrara delas, e voltei para o campo de batalha.

— Thi?

— É melhor você ficar aí. Ela tava voando; agora tá pendurada no sofá.

— Ai. Vou tentar abrir a porta pra ela sair!

Brilhante idéia, Carolina. Brilhante. Como você pretendia fazer aquilo sem passar por aquele monstro mutante?
Mas lá fui eu, exemplo da coragem feminina, pulando a qualquer tremida de asas da mariposa, abrir a porta. E consegui sair ilesa da missão, vivas para mim! Entretanto, quem não quis entrar na brincadeira foi a mariposa. Lá ela continuou, pousada no sofá, parece que zombando das nossas tentativas frustradas de fazê-la ir embora.

— Taca mais SBP! — eu disse.

Acabamos com o vidro de SBP; nada. Busquei outro. No que o Thiago abriu o frasco aquele demônio alado, talvez prevendo outra tentativa homicida da nossa parte, abriu suas enormes asas negras e amareladas e partiu para cima do coitado.

— AH! AHHH! ELA TÁ ME ATACANDO!!!

— AAAAHHHHH!!!!

Corremos para a cozinha. De lá, observávamos a astúcia da mariposa, voando calmamente pela sala. Depois de algum tempo, ela se escondeu em baixo da mesa.

— É agora! — eu disse — Mais SBP!

Espirramos mais SBP naquela mutação genética, que começou a se debater freneticamente. Esboçou mais algumas tentativas de vôo, frustradas pelo veneno, e pôs-se a cambalear pelo chão da sala.

— Ah, agora fica mais fácil, né? — eu disse.

— É, né... — respondeu o Thiago, e ficou me olhando — Mas ela ainda tá fugindo.

Depois de algumas tentativas frustradas de tiro ao alvo com meus chinelos, eis que Thiago teve a brilhante idéia de jogar o pano em cima da mariposa.

— Você joga — falei.

E ele jogou. Acertou em cheio as asonas pretas e nojentas da mariposa.
E lá ficou, aquele monstro diabólico e perverso, debatendo-se debaixo do pano de chão sujo.

— Você vai pegar a bichinha? — perguntei, suplicante, mas já sabendo a resposta.

— Há. De jeito nenhum. Deixa ela aí!

Mas eu não podia deixá-la ali.
Ela se debatia, o pano mexia, começava a me dar uma agonia danada de ver a agonia da pobrezinha.
Sim, ela era um monstro vindo direto do inferno, mas, ainda assim, a hora da morte de qualquer ser vivo deve ser respeitada.
E foi por isso, por piedade, que eu não tive dúvidas e pisei em cima do pano. Uma, duas, três vezes. Dancei um sapateado romeno em cima da bicha, até ter certeza de que ela não iria se mexer mais.

— Pronto. Agora você pega? — perguntei.

— Eu, heim!! — respondeu Thiago se afastando.

Então, como não havia mais jeito, fiz eu o trabalho sujo de me livrar do corpo. Deitei-o no jardim, com pano e tudo, da maneira mais rápida e limpa que pude encontrar.

E foi assim que se deu a batalha épica de dois urbaninhos guerreiros e extremamente corajosos com um terrível monstro alado saído direto dos últimos círculos do inferno.
Por favor, crianças, não tentem isso em casa. Um negócio desses pode causar danos psicológicos irreversíveis...

E fim.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

08.08.08 IV - Finalmente Final

- Hum, pelo jeito ela sabe mais do que a gente imaginava – disse Tod enquanto dava uma longa tragada no cigarro – Sente-se, Carol – continuou, encarando-me – E pegue mais uma Heineken. Acho que temos muito que conversar.

Sentei-me num pufe colorido, retirando uma revista da Turma da Mônica que ali estava e apossando-me de mais uma garrafa da Heineken.
Tentei colocar meus pensamentos em ordem, o que era tarefa difícil, uma vez que três seres bastante peculiares ainda me observavam com seus grandes olhos coloridos.

Bebi alguns goles da cerveja.

Certo. Aqueles eram os famosos (ou não tão famosos assim) Sacanas Que Controlam O Destino Da Humanidade. Chamavam-se Tod, Bob e Zod. Bebiam Heinkens, jogavan Play Station, liam histórias em quadrinhos e não deviam ser muito chegados numa faxina.
Sim, aquilo explicava muita coisa sobre o destino da humanidade.

- Então, Carol - começou Tod - Nós somos Aqueles Que Foram Criados Antes Mesmo Da Criação, entende?

- Há quem diga que nós mesmos nos criamos - disse Bob - Mas eu não tenho tanta certeza disso, visto que não nos lembramos de como fizemos isso.

- Sim, o que é uma pena - falou Zod - Você pode imaginar o que é passar uma eternidade só com esses dois marmanjos aí?

- Hum... deve ser... - tentei dizer.

- Um saco - completou o ser com moicano - Por isso as Heinekens, as revistas, o vídeo-game...

Aquilo começava a me soar extremamente interessante. Explicava muitas coisas, aliás.
Bebi mais cerveja.

- Pois é - disse Tod - Foi então que, durante um dia frio e cinzento, daqueles em que nada se tem e nada se pensa pra fazer...

- E que resolvemos chamar de Domingo - complementou Zod.

- ...decidimos que continuar a viver daquele jeito não ia dar. Precisávamos urgentemente de alguma coisa que nos entretesse, sabe, que nos tirasse daquela monotonia...

- ...e então eu resolvi ir até a janela tomar um pouco de ar - disse Bob - porque o Zod acendia um cigarro atrás do outro - continuou, virando para o amigo e fazendo fazendo uma careta - e meu pulmão não é cinzeiro, saca...

- ...aí - disse Tod acendendo outro cigarro e soltando a fumaça na cara de Bob - essa bicha aí virou, empolgadíssimo, para mim e para o Zod e disse...

- Humanidade!

- Eu perguntei, obviamente - disse Zod - que porra era aquela que ele estava gritando...

- E eu respondi que não sabia, também, mas que tinha jeito de chamar "humanidade".

Eu precisava urgentemente de mais uma garrafa de Heineken.

- O que o Bob, aí, chamou de "Humanidade" - disse Tod - Eram serezinhos muito peculiares, bem parecidos com você, aliás...

- Só que beeeem mais peludos - interviu Zod.

- ... e que vieram, como soubemos depois de analisar um deles atenciosamente, da mistura das cinzas dos meus cigarros e da terra do nosso vaso de petúnias com um pouco da nossa saliva e da cerveja que o Bob desperdiçou porque estava bêbado e jogou a garrafa pela janela.

- Por quê cargas d'água essa mistura bizarra resultou em serezinhos tão divertidos eu não tenho a mínima idéia - falou Bob - Mas vocês tinham uma cara de "Humanidade" a primeira vez que os vi... eu sabia que esse nome ia pegar.

Eu estava embasbacada com aquilo que havia acabado de ouvir. Tentei pronunciar alguma coisa, mas minha voz entrara em greve por melhores condições de trabalho e encontrava-se no momento acampada em minha laringe segurando um cartazinho em branco e comendo pipocas.
Abri mais uma garrafa de Heineken.

- Aí acho que você já sacou o que aconteceu depois - começou Zod - O Bob teve a brilhante idéia da gente influenciar a vida da "humanidade" e ver o que acontecia com eles. Isso nos propiciou séculos e mais séculos de diversão...

- É bem verdade que algumas vezes eles fugiam do nosso controle - disse Tod - E se matavam uns aos outros sem que nós mandássemos...

- Mas temos que admitir que isso dava um sabor a mais para a diversão - completou Zod piscando o olho.

- Agora eu só queria saber o quê diabos você está fazendo aqui - disse Bob arqueando as sobrancelhas.

Ah, como se eu soubesse!

- É, então - comecei a dizer - Eu também gostaria de saber. A última coisa da qual me lembro é estar debaixo de uma samambaia com meu Guru Espiritual, o Profeta Zé Apocalipse...

- Ah, sim, seu amigo barbudo! - exclamou Zod - Gente boa, ele. As vezes dá um pulo aqui em cima pra gente beber uma breja, ou um café.

- Devíamos ter imaginado que era coisa dele - comentou Tod - Ainda está se escondendo d'ELES?

- Sim, sim - eu disse - o Zé está sempre se escondendo d'ELES...

- E é a melhor coisa que ele faz - disse Bob.

Nesse momento uma nuvem de fumaça púrpura tomou o aposento e surgiu, de dentro dela, meu queridíssimo Guru Espiritual Zé Apocalipse e sua inseparável toalha cor-de-laranja.

- Saudações, rapazes - disse ele - Espero que não tenha causado contrangimento o fato de ter deixado minha protegida aqui com os senhores sem tê-los avisado previamente.

- Ah, relaxa, Zé - disse Bob - Ficamos com receio no começo, mas cê tá ligado que adoramos conversar com alguém, né?

- Principalmente se for um daqueles lá - completou Zod.

- Muito que bem - disse o Zé - Eu precisei resolver alguns assuntos com a abertura do Portal de Órion e era extremamente necessário que ela ficasse em segurança. Bom, acho que é hora de irmos, não acha, Carolina?

- É, acho que sim... - respondi, meio aérea.

- Bem, até a próxima Zé! Foi um prazer conhecê-la, Carol. Sempre que quiser beber uma breja com a gente esteja a vontade, viu?

- Obrigada...

- Até mais - disse Zé, pegando alguma coisa dentro de sua bolsa - e obrigado pelos peixes!

Mais uma vez aquela sensação de estar sendo sugada por um cano bem menor do que meu corpo acometeu meus sentidos e, no instante seguinte, estava eu em casa novamente, totalmente sozinha - e ligeiramente bêbada.


(FIM - finalmente xD)

terça-feira, 19 de agosto de 2008

08.08.08 III - Os Sacanas Que Ficam Brincando Com O Destino Da Humanidade

- Meu - disse um deles - Acho que ela é um daqueles lá.

Fiquei a observar, completamente sem reação, aqueles peculiares seres de olhos grandes e rostos compridos, sem ter a mínima idéia do que diabos aquilo queria dizer.

Por que cargas d’água o Zé sempre some nessas horas?

- Sóóóó... – falou o do moicano verde, cujo nome, pelo que estava escrito em sua camiseta, devia ser Zod – E agora? – continuou, bebendo um longo gole do líquido da garrafa azul.

- Hum... ah... – comecei – Er... Oi, eu... é... sou a Carol, e... hã...

- Tá vendo! – exclamou Bob, o que usava um boné de beisebol – É aquela lá!!

- Sabemos quem você é – disse Tod, o dos óculos de aro preto.

- Ah! – falei – Vocês sabem quem eu sou... – repeti, tentando compreender alguma coisa além do fato de que eu estava mais perdida do que um historiador fefelechento na Daslu. Talvez se me oferecessem uma Heineken, ou um gole daquela garrafa azul...

- Opa, pegue uma Heineken, Carol – disse Tod, entregando-me uma lata – Talvez ela ajude a pôr os pensamentos em ordem.

Ai, caramba! Eles lêem os meus pensamentos?! O Zé bem que me avisou dos chapéus de alumínio; quem mandou ser tão esquecida, Carolina!?!

- Ih, relaxa, moça; só lemos os pensamentos que você nos permite ler – disse Tod acendendo um cigarro preto – E o chapéu de alumínio do seu amigo Zé de nada iria adiantar, de qualquer forma.

Abri a latinha e tomei um longo gole.

Utilizando um método antigo e prático de Oclumancia, método este passado de geração para geração na Antiga Civilização de Bähbd e que o Zé, sabe Zeus como, aprendeu e me ensinou há algum tempo para que meus pensamentos não fossem ouvidos por cabeças alheias, pus-me a conjecturar:

Quem seriam esses caras?
Quem seriam os “aqueles lá” dos quais eu fazia parte?
Que maldito lugar era aquele?
Aonde o Zé teria se enfiado?
O que haveria naquela garrafa azul?
Que horas seriam agora?
Por que as joaninhas vermelhas com bolinhas pretas estão desaparecendo?
Quem seriam os sacanas que ficam brincando com o destino da humanidade?

*Clique!*

- Os Sacanas que ficam brincando com o destino da Humanidade! – exclamei de repente, virando o resto da cerveja goela a baixo e encarando-os.

- Quem? – disse Zod.

- Vocês! – eu disse, pegando outra Heineken e bebendo quase tudo em um gole só – Vocês são os caras que daqui de cima controlam a humanidade toda lá em baixo e ficam se divertindo às nossas custas!!

- Humanidade! – disse Bob, empolgado – Eu sabia que esse nome ia pegar!

- Hum, pelo jeito ela sabe mais do que a gente imaginava – disse Tod enquanto dava uma longa tragada no cigarro – Sente-se, Carol – continuou, encarando-me – E pegue mais uma Heineken. Acho que temos muito que conversar.


(Continua, de novo... juro que a próxima é o final xD)

terça-feira, 12 de agosto de 2008

08.08.08 II - Através do Portal

Saudações, caros e insanos freqüentadores do Idéias Mirabolantes!

Como havia escrito no post anterior, Profeta Zé Apocalipse avisou-me da abertura do Portal de Órion.

Estava eu, confortavelmente sentada em minha poltrona azul-marinho, preparadíssima para a abertura do Portal de Órion, que, segundo o Zé, ocorreria exatamente às 08 horas e 08 minutos daquele dia quando, tendo eu caído em um ligeiro cochilo, eis que surge a figura já conhecida de meu guru despenteado adentrando espalhafatosamente pela porta da varanda.

- Carolina! - dizia ele - Acorde, Carolina! São oito horas e cinco minutos!

- Hã? Ah! Oi, Zé! E aí?

- Pois então, Carolina! Preparou-se adequadamente para a abertura do Portal?

- Você acha que ainda precisa de mais alguma coisa? - perguntei, mostrando-lhe a toalha, o saco de pipocas, a lanterna e as pilhas.

- Não, acho que não. De qualquer forma, não temos mais tempo! Venha, acho que o melhor lugar para se estar durante a abertura é ao pé de uma samambaia.

- Ao pé de uma samambaia? Mas...

- Em baixo de uma também serve. Venha.

Pegando-me pelo braço, levou-me até o hall de entrada do prédio, aonde havia uma pequena samambaia pendurada na parede.

- Oito horas, sete minutos e cinqüenta segundos. Dentro de alguns instantes...

Foi então que aconteceu.

Primeiro tudo a minha volta parou, depois as cores ficaram ridiculamente mais intensas. Uma névoa púrpura começou a sair do vasinho de samambaia e Shine On Your Crazy Diamond começou a tocar, sabe-se lá de onde.

- Zé... - eu comecei a dizer.

- Shh! Tá funcionando! Vê? Depois dessa névoa púrpura encontram-se...

E então, quando eu menos esperava, aquela sensação básica de estar sendo sugada por um aspirador de pó gigante acometeu meu corpo, e tudo ficou escuro.

***

Quando finalmente resolvi que a situação parecia ter-se normalizado - na medida do possível - abri meus olhos.

O Zé havia sumido, e eu me encontrava em uma sala circular, enorme, com incontáveis janelas, poltronas e almofadas coloridas. Haviam telescópios posicionados em todas as janelas. Latinhas de Pringles estavam espalhadas pelo chão, ao lado de várias revistas-em-quadrinhos; um vídeo-game de realidade virtual estava conectado a um grande televisor de plasma, várias garrafas vazias de Heineken estavam jogadas por aí - e muitas outras cheias estavam empilhadas em um canto - e três seres indefiníveis observavam-me com sincero interesse.

- Hum. Oi? - tentei.

Os três eram figuras bem interessantes. Eram bem altos e bem magros, com a cabeça oval meio puxada para trás e olhos realmente grandes.

Um deles tinha os cabelos compridos e claros, e deixava-os soltos. Usava óculos de aro preto e grosso envolvendo os olhos azulados e uma camiseta listrada aonde se lia “Tod”.

O outro, que segurava uma garrafa azulada com o líquido pela metade, tinha um moicano verde e olhos púrpuras. Vestia uma blusa vermelha onde estava escrito “Zod” em letras de grafitti.

O último, que estava mais à frente dos outros, tinhas olhos castanho-avermelhados, usava um boné de beisebol e uma camiseta branca com o nome “Bob”, em vermelho, e uma seta apontando para cima.

- Meu - disse um deles - Acho que ela é um daqueles lá.


(Continua...)


"A verdade do Universo é prestação que vai vencer"