Depois de mais de oito meses, eis que alguma centelha de inspiração ainda me resta. E aproveitei pra mudar o layout do blog, de novo; quem sabe assim sinto vontade de atualizá-lo com mais frequência...
***
O despertador tocou. Josimar abriu com dificuldade seus olhos verde escuros e tentou focalizar os ponteiros luminosos do seu rádio-relógio. Quatro e quinze da manhã. Hora de levantar, colocar o uniforme, comer os farelos do jantar e ir para o trabalho.
Josimar era cobrador de ônibus há uns oito anos, e era só. Todos os dias, de domingo a quinta, acordava antes das cinco horas da manhã, chegava cedo no trabalho, distribuía pequenas doses de automáticos “bom-dias” aos colegas de trabalho e às pessoas sem rosto que entravam e saíam de seu ônibus durante o dia, voltava para o apartamento na periferia que herdara dos pais no final da tarde, assitia a novela das oito que começava às nove na pequena televisão de quatorze polegadas, jantava qualquer coisa congelada e ia dormir antes das onze. De domingo a quinta Josimar simplesmente existia, fazendo exatamente tudo o que pelos outros era esperado que fizesse: Josimar, o que nunca se atrasa; Josimar, o que nunca erra no troco; Josimar, o Funcionário do Mês.
Ele levantou-se preguiçosamente e vestiu a camisa azul clara, a calça jeans surrada e os All Star vermelhos. Sim, hoje era dia de usar aqueles tênis vermelhos. Hoje não era um domingo ou uma quinta-feira qualquer, era sexta. Ah, a tão esperada sexta-feira. O dia em que Josimar finalmente poderia ser ele mesmo.
Passou um café fraco, comeu um pedaço de um pão doce que encontrara no armário e saiu, assoviando, para trabalhar. Até os seus “bom dias” ficavam menos automáticos às sextas-feiras. Talvez fosse coisa dos tênis vermelhos, diziam alguns de seus colegas. Talvez fosse a mágica psicológica das sextas-feiras, diziam outros. O fato era que até mesmo o dia de trabalho passava mais rápido para Josimar às sextas-feiras.
Era fim de tarde, já, e Josimar caminhava alegremente de volta para seu apartamento. Olhou em seu relógio de pulso, seis horas. Ele tinha exatas três horas para fazer tudo o que precisava ser feito para seu compromisso da noite. Dessa vez teria carona, graças a Deus, e não precisaria fazer tudo correndo. Hoje ele teria todo o tempo do mundo para se preparar.
Chegou em casa, tomou um demorado banho e, ainda de toalha, abriu aquela parte do armário que só era aberta naquele dia da semana. Destrancou as gavetas vagarosamente, como sempre fazia, curtindo cada momento, e puxou-as para si.
Depois de quase duas hora de indecisão, finalmente conseguiu escolher uma roupa que achou servir direitinho para aquela ocasião. Agora faltavam apenas os retoques finais na aparência e em alguns minutos já estava pronto.
Olhou-se no espelho e sorriu. Sim, aquele, sim, era seu eu verdadeiro. O vestido alaranjado, com detalhes em magenta cintilante e cheio de lantejoulas caía-lhe muito bem nas costas, alongando sua silhueta e dando-lhe um ar meio vintage. A maquilagem colorida em seus olhos verdes ressaltava seu olhar, propiciando-lhe sensualidade e mistério. E a peruca, ah!, como gostava daquele cabelo acobreado caindo em cachos pelos seus ombros! E os garotos da boate, lembrou-se com um sorrisinho, aqueles com certeza também gostavam.
O interfone tocou; sua carona chegara. E, finalmente, depois de seis dias sendo exatamente quem queriam que ele fosse, ele poderia ser, durante toda a madrugada daquela sexta-feira, quem ele realmente era. Deixava, então, de ser simplesmente Josimar Guimarães dos Santos Silva, cobrador de ônibus e funcionário do mês, para ser Lady Katrynna Glamourosa, a estrela de dança sensual por quem os garotões sempre se apaixonavam da boate drag Rainha da Cidade Pink.
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quinta-feira, 17 de março de 2011
sábado, 11 de julho de 2009
A Lagartixa Raio De Sol - Parte III
O Sol se aproximava do horizonte quando a Lagartixa Raio de Sol finalmente chegou aos pés dos Grandiosos Portões Que Teoricamente Não Davam Para Lugar Nenhum.
Um sentimento de missão quase cumprida e contentamento quase pleno apoderou-se dela enquanto estava a observar aqueles imponentes portais de madeira esburacada e dobradiças de aço enferrujado com os olhinhos castanhos marejados de emoção.
— Finalmente... — murmurou a Lagartixa avançando lentamente em direção aos Portões — Vou ser a primeira Lagartixa a descobrir o que diabos tem do Outro Lado dos Grandiosos Portões Que Teoricamente Não Dão Para Lugar Nenhum... o que será que verei? — continuou, encostando as frias patas na madeira velha do portal.
Hesitou ao empurrá-las.
— Por que será que ninguém nunca quis saber disso antes? — perguntou-se.
Então uma onda crescente de pânico começou a tomar lugar em seu peito, corroendo a sensação de missão quase cumprida e esburacando o sentimento de contentamento quase pleno.
E se fosse melhor não saber o que havia do outro lado? E se ela não estivesse preparada para o que cargas d’água poderia haver ali? E se fosse justamente esse o motivo de terem fechado os portões e de ninguém se atrever a ver o que se passava do lado de lá? E se tudo não passasse de uma árvore de maçãs carregada de frutas-do-conde?
— Não entre em pânico, não entre em pânico, NÃO ENTRE EM PÂNICO, PORRA!! — dizia uma vozinha histérica em sua cabeça.
Raio de Sol respirou fundo e retirou de seu bolso a pequena fruta-do-conde que o Mini-Canguru-Dos-Campos lhe jogara na cabeça. Ficou alguns instantes a observá-la, reparando em todos os gominhos esquisitos dispostos em sua casca, pensando o quê diabos Deus estaria pensando quando criou aquela fruta, ou quando criou o kiwi, quando criou o ornitorrinco, quando criou ela mesma.
Voltou novamente o olhar para os Grandiosos Portões.
— E seu Deus não tiver nada a ver com isso? — pensou.
Fechando os olhos, resolveu começar a abri-los lentamente. Quando havia uma pequena fresta aberta, jogou sua fruta-do-conde para o outro lado e fechou-o rapidamente. Esperou, escutando. Não ouviu nada, e sua curiosidade aumentou.
— Que seja o que tiver que ser — pensou, dando de ombros — Afinal, que é que eu tenho a perder?
Empurrou os pedaços de madeira velha com toda a sua força. Eles estalaram e se abriram com um estrondo, deixando uma lagartixa antes assustada completamente estupefata com o que viu.
Era igual.
Exatamente igual.
O outro lado se compunha das mesmas montanhas que ela conhecia desde pequena e que existiam do lado de cá. Eram os mesmos campos verdejantes, as mesmas macieiras que davam frutas-do-conde. O Sol brilhava do mesmo jeito dos dois lados, o céu continuava a ser azul, vermelho e dourado no pôr-do-sol, as nuvens continuavam a ser de algodão doce.
— Eu falei que não tinha nada, não falei? — disse o Mini-Canguru-Dos-Campos, surgido sabe-se-lá de onde.
— Ora — disse a lagartixa — Tem, sim. Muita coisa, aliás. E agora eu sei — respondeu a lagartixa, precipitando-se pelo portal e apanhando a fruta-do-conde que jogara para o outro lado — Tome — entregou-a ao Mini-Canguru-Dos-Campos — Pode ser útil.
Raio de Sol fechou novamente os portões e voltou alegre e contente para o Vilarejo Tranqüilo, assobiando uma bela canção.
[FIM]
Um sentimento de missão quase cumprida e contentamento quase pleno apoderou-se dela enquanto estava a observar aqueles imponentes portais de madeira esburacada e dobradiças de aço enferrujado com os olhinhos castanhos marejados de emoção.
— Finalmente... — murmurou a Lagartixa avançando lentamente em direção aos Portões — Vou ser a primeira Lagartixa a descobrir o que diabos tem do Outro Lado dos Grandiosos Portões Que Teoricamente Não Dão Para Lugar Nenhum... o que será que verei? — continuou, encostando as frias patas na madeira velha do portal.
Hesitou ao empurrá-las.
— Por que será que ninguém nunca quis saber disso antes? — perguntou-se.
Então uma onda crescente de pânico começou a tomar lugar em seu peito, corroendo a sensação de missão quase cumprida e esburacando o sentimento de contentamento quase pleno.
E se fosse melhor não saber o que havia do outro lado? E se ela não estivesse preparada para o que cargas d’água poderia haver ali? E se fosse justamente esse o motivo de terem fechado os portões e de ninguém se atrever a ver o que se passava do lado de lá? E se tudo não passasse de uma árvore de maçãs carregada de frutas-do-conde?
— Não entre em pânico, não entre em pânico, NÃO ENTRE EM PÂNICO, PORRA!! — dizia uma vozinha histérica em sua cabeça.
Raio de Sol respirou fundo e retirou de seu bolso a pequena fruta-do-conde que o Mini-Canguru-Dos-Campos lhe jogara na cabeça. Ficou alguns instantes a observá-la, reparando em todos os gominhos esquisitos dispostos em sua casca, pensando o quê diabos Deus estaria pensando quando criou aquela fruta, ou quando criou o kiwi, quando criou o ornitorrinco, quando criou ela mesma.
Voltou novamente o olhar para os Grandiosos Portões.
— E seu Deus não tiver nada a ver com isso? — pensou.
Fechando os olhos, resolveu começar a abri-los lentamente. Quando havia uma pequena fresta aberta, jogou sua fruta-do-conde para o outro lado e fechou-o rapidamente. Esperou, escutando. Não ouviu nada, e sua curiosidade aumentou.
— Que seja o que tiver que ser — pensou, dando de ombros — Afinal, que é que eu tenho a perder?
Empurrou os pedaços de madeira velha com toda a sua força. Eles estalaram e se abriram com um estrondo, deixando uma lagartixa antes assustada completamente estupefata com o que viu.
Era igual.
Exatamente igual.
O outro lado se compunha das mesmas montanhas que ela conhecia desde pequena e que existiam do lado de cá. Eram os mesmos campos verdejantes, as mesmas macieiras que davam frutas-do-conde. O Sol brilhava do mesmo jeito dos dois lados, o céu continuava a ser azul, vermelho e dourado no pôr-do-sol, as nuvens continuavam a ser de algodão doce.
— Eu falei que não tinha nada, não falei? — disse o Mini-Canguru-Dos-Campos, surgido sabe-se-lá de onde.
— Ora — disse a lagartixa — Tem, sim. Muita coisa, aliás. E agora eu sei — respondeu a lagartixa, precipitando-se pelo portal e apanhando a fruta-do-conde que jogara para o outro lado — Tome — entregou-a ao Mini-Canguru-Dos-Campos — Pode ser útil.
Raio de Sol fechou novamente os portões e voltou alegre e contente para o Vilarejo Tranqüilo, assobiando uma bela canção.
[FIM]
domingo, 5 de julho de 2009
A Lagartixa Raio De Sol - Parte II
Após muito caminhar pela Estrada Que Levava Até Os Grandiosos Portões Que Teoricamente Não Davam Para Lugar Nenhum — estrada esta construída muito, muito tempo antes das Lagartixas Que Se Diziam Modernas E Inteligentes assumirem o poder e proclamarem que os Antigos Portões Construídos Sabe-se Lá Por Quem não davam para lugar nenhum e que seguir por aquela estrada era completa perda de tempo e dinheiro — Raio de Sol resolveu parar para descansar debaixo de uma macieira.
E lá estava ela, de olhos fechados e coração aberto aproveitando a brisa fresca vinda do oeste quando, de repente, uma grande e gorda fruta-do-conde caiu pesadamente em sua cabeça, dando-lhe então o ponto de partida para a hoje tão difundida teoria da relatividade, cuja base antiga foi, justamente, como diabos uma fruta-do-conde poderia cair pesadamente na cabeça de uma lagartixa que se encontrava não debaixo de uma árvore — ou seja lá pé de quê frutas-do-conde gostam de nascer — de frutas-do-conde, mas, sim, debaixo de uma macieira.
A lagartixa Raio de Sol levantou-se cambaleando e olhou em volta. A alguns metros de onde estava havia um Mini-Canguru-Dos-Campos com a cabeça cor-de-abóbora enfiada numa moita e uma sacola cheia de frutas-do-conde segura nas patas.
— Ei, carinha! — disse a lagartixa coçando a cabeça — O que você está fazendo aí?
Silêncio.
— Oi! — continuou Raio de Sol — Eu estou falando com você...?
Mais silêncio.
— Ah... oi? — repetiu a lagartixa, dessa vez cutucando o Mini-Canguru-Dos-Campos.
— AHHH! — gritou o Mini-Canguru-Dos-Campos tirando a cabeça de dentro da moita com um movimento brusco.
— AHHHHHH!!! — gritou Raio de Sol sem saber exatamente por que.
— AAAAAHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH!!!!!!!!!! — gritou de novo o canguru.
— AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH!!! — berrou a plenos pulmões a lagartixa.
— AAHHH... ah... por quê diabos estamos gritando? — disse o canguru.
— Putaqueopariuvaisefoderfilhodaputa!! — resmungou Raio de Sol enquanto se recuperava do susto — Eu é que pergunto, pombas! Você...
— Ah, sim! Como foi que você me achou? Eu estava escondido, droga.
— Como assim como foi que eu te achei? Só a sua cabeça estava escondida, o resto...
— Era a parte mais importante a ser escondida, não? Digo, como você pode me ver, se eu não vejo você?
— ...
— Você deve ter sétimo sentido... não?
— ...
— Em todo o caso, o que faz uma Lagartixa Tranqüila perambulando sozinha pela Estrada Que Leva Até Os Grandiosos Portões Que Teoricamente Não Dão Para Lugar Nenhum? Isso não é coisa de lagartixas. É coisa de Mini-Cangurus-Dos-Campos.
— E jogar frutas-do-conde nas cabeças das lagartixas tranqüilas que resolvem perambular sozinhas pela Estrada Que Leva Até Os Grandiosos Portões Que Teoricamente Não Dão Para Lugar Nenhum também é coisa de Mini-Cangurus-Dos-Campos?
— É claro que é. Todo mundo sabe disso. Mas o que importa é: você está a procura dos Grandiosos Portões Que Teoricamente Não Dão Para Lugar Nenhum?
— Ah... é... é, é sim, estou, sim.
— Pois então desista, pequena lagartixa. Não tem nada do lado de lá. Eu já vi, meus companheiros Mini-Cangurus também já viram. É perda de tempo.
— Hum. Ora, se você viu que não há nada do lado de lá, significa que alguma coisa há para se ver, nem que essa coisa seja o nada, concorda?
— Bem... de que importa, também? Tome, leve uma fruta-do-conde com você. Pode ser importante. Ou não — disse o Mini-Canguru-Dos-Campos, entregando-lhe uma fruta e pulando para longe logo em seguida — Até mais, pequena lagartixa! Só não vá se perder por aí! — gritou ele um pouco antes de sumir por entre as folhagens do bosque próximo à estrada.
— Cada um... — pensou Raio de Sol, continuando sua jornada.
(Continua)
E lá estava ela, de olhos fechados e coração aberto aproveitando a brisa fresca vinda do oeste quando, de repente, uma grande e gorda fruta-do-conde caiu pesadamente em sua cabeça, dando-lhe então o ponto de partida para a hoje tão difundida teoria da relatividade, cuja base antiga foi, justamente, como diabos uma fruta-do-conde poderia cair pesadamente na cabeça de uma lagartixa que se encontrava não debaixo de uma árvore — ou seja lá pé de quê frutas-do-conde gostam de nascer — de frutas-do-conde, mas, sim, debaixo de uma macieira.
A lagartixa Raio de Sol levantou-se cambaleando e olhou em volta. A alguns metros de onde estava havia um Mini-Canguru-Dos-Campos com a cabeça cor-de-abóbora enfiada numa moita e uma sacola cheia de frutas-do-conde segura nas patas.
— Ei, carinha! — disse a lagartixa coçando a cabeça — O que você está fazendo aí?
Silêncio.
— Oi! — continuou Raio de Sol — Eu estou falando com você...?
Mais silêncio.
— Ah... oi? — repetiu a lagartixa, dessa vez cutucando o Mini-Canguru-Dos-Campos.
— AHHH! — gritou o Mini-Canguru-Dos-Campos tirando a cabeça de dentro da moita com um movimento brusco.
— AHHHHHH!!! — gritou Raio de Sol sem saber exatamente por que.
— AAAAAHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH!!!!!!!!!! — gritou de novo o canguru.
— AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH!!! — berrou a plenos pulmões a lagartixa.
— AAHHH... ah... por quê diabos estamos gritando? — disse o canguru.
— Putaqueopariuvaisefoderfilhodaputa!! — resmungou Raio de Sol enquanto se recuperava do susto — Eu é que pergunto, pombas! Você...
— Ah, sim! Como foi que você me achou? Eu estava escondido, droga.
— Como assim como foi que eu te achei? Só a sua cabeça estava escondida, o resto...
— Era a parte mais importante a ser escondida, não? Digo, como você pode me ver, se eu não vejo você?
— ...
— Você deve ter sétimo sentido... não?
— ...
— Em todo o caso, o que faz uma Lagartixa Tranqüila perambulando sozinha pela Estrada Que Leva Até Os Grandiosos Portões Que Teoricamente Não Dão Para Lugar Nenhum? Isso não é coisa de lagartixas. É coisa de Mini-Cangurus-Dos-Campos.
— E jogar frutas-do-conde nas cabeças das lagartixas tranqüilas que resolvem perambular sozinhas pela Estrada Que Leva Até Os Grandiosos Portões Que Teoricamente Não Dão Para Lugar Nenhum também é coisa de Mini-Cangurus-Dos-Campos?
— É claro que é. Todo mundo sabe disso. Mas o que importa é: você está a procura dos Grandiosos Portões Que Teoricamente Não Dão Para Lugar Nenhum?
— Ah... é... é, é sim, estou, sim.
— Pois então desista, pequena lagartixa. Não tem nada do lado de lá. Eu já vi, meus companheiros Mini-Cangurus também já viram. É perda de tempo.
— Hum. Ora, se você viu que não há nada do lado de lá, significa que alguma coisa há para se ver, nem que essa coisa seja o nada, concorda?
— Bem... de que importa, também? Tome, leve uma fruta-do-conde com você. Pode ser importante. Ou não — disse o Mini-Canguru-Dos-Campos, entregando-lhe uma fruta e pulando para longe logo em seguida — Até mais, pequena lagartixa! Só não vá se perder por aí! — gritou ele um pouco antes de sumir por entre as folhagens do bosque próximo à estrada.
— Cada um... — pensou Raio de Sol, continuando sua jornada.
(Continua)
segunda-feira, 29 de junho de 2009
A Lagartixa Raio De Sol - Parte I
Há muito tempo atrás, numa terra distante, além do bosque dos gnomos cor-de-abóbora, bem depois das planícies geladas do sul, lá por onde os animais ainda falam e as nuvens são feitas de algodão-doce vivia alegremente no tranqüilo Vilarejo Tranqüilo uma linda e meiga lagartixa chamada Raio de Sol.
Raio de Sol não era uma lagartixa qualquer, daquelas que acordavam todos os dias às sete horas da manhã para ver o que seu vizinho estaria fazendo acordado àquela hora da manhã e passavam o resto de seus dias tranquilamente fazendo coisas tranqüilas no Vilarejo Tranqüilo.
Ah, não.
Em primeiro lugar, Raio de Sol era filha de lagartixas hippies. Como qualquer um sabe, ser filho de lagartixas hippies implica em nomes mágicos, bolos de aniversário temperados e poucos amigos na infância.
Em segundo lugar, ela era a única em todo o Vilarejo que se perguntava se existiria alguma coisa para além dos muros da cidadela. Todos os outros assumiam a postura do “se não posso ver é porque não preciso saber” e continuavam a mexer a massa dos seus bolinhos de girassol.
Um belo dia Raio de Sol acordou às sete horas da manhã com a claridade do dia entrando pela sua janela aberta, calçou suas botas vermelhas de andarilho, deixou um bilhete para seus pais — que estavam dormindo na sala completamente chapados — e resolveu ir descobrir por conta própria o que haveria para além dos muros do seu vilarejo, possibilitando, para felicidade de seus vizinhos, que as conversas destes finalmente girassem em torno de algum assunto mais empolgante do que a consistência das massas de seus bolinhos de girassol.
(Continua)
Raio de Sol não era uma lagartixa qualquer, daquelas que acordavam todos os dias às sete horas da manhã para ver o que seu vizinho estaria fazendo acordado àquela hora da manhã e passavam o resto de seus dias tranquilamente fazendo coisas tranqüilas no Vilarejo Tranqüilo.
Ah, não.
Em primeiro lugar, Raio de Sol era filha de lagartixas hippies. Como qualquer um sabe, ser filho de lagartixas hippies implica em nomes mágicos, bolos de aniversário temperados e poucos amigos na infância.
Em segundo lugar, ela era a única em todo o Vilarejo que se perguntava se existiria alguma coisa para além dos muros da cidadela. Todos os outros assumiam a postura do “se não posso ver é porque não preciso saber” e continuavam a mexer a massa dos seus bolinhos de girassol.
Um belo dia Raio de Sol acordou às sete horas da manhã com a claridade do dia entrando pela sua janela aberta, calçou suas botas vermelhas de andarilho, deixou um bilhete para seus pais — que estavam dormindo na sala completamente chapados — e resolveu ir descobrir por conta própria o que haveria para além dos muros do seu vilarejo, possibilitando, para felicidade de seus vizinhos, que as conversas destes finalmente girassem em torno de algum assunto mais empolgante do que a consistência das massas de seus bolinhos de girassol.
(Continua)
quinta-feira, 29 de janeiro de 2009
Em Busca Da Inspiração Perdida - Parte I
Era uma noite como outra qualquer e lá estava eu, esticada em minha cama, as janelas do quarto escancaradas e o ventilador de teto ligado no máximo em uma vã tentativa de espantar o calor ridiculamente excessivo dessa época do ano.
Não conseguia dormir. Olhei no relógio, passava das quatro da manhã.
— Ah. Como eu adoro passar calor — resmunguei enquanto levantava da cama e buscava em minha estante alguma coisa para ler — Hum, poderia ir tomar um banho gelado, talvez isso me fizesse bem — continuei dizendo, talvez para o desenho da Princesa da Babilônia que me espiava da capa do livro do Voltaire jogado em cima do meu criado-mudo, enquanto caminhava em direção à porta.
— Nevermore! — gritou alguma coisa às minhas costas.
Nevermore.
Sim, isso era, afinal, um som muito natural de se ouvir às quatro horas da manhã em meu apartamento.
Ainda se fosse no alto de uma torre sombria, durante uma noite escura, tempestuosa e gelada, ouvindo as ondas do mar chocarem-se com fúria nas pedras lá em baixo e lendo, à luz de uma única e parcialmente derretida vela, Edgar Allan Poe, vá lá.
Mas em uma madrugada de calor infernal no oitavo andar de um prédio amarelo e cor-de-rosa erguido há uns vinte e poucos anos num bairro afastado da cidade de São Paulo?
Sim, muito natural.
Virei-me lentamente, sem saber exatamente se queria ou não saber o que diabos teria gritado “Nevermore!” do beiral da minha janela.
E qual foi o meu espanto, então, ao ver um belíssimo pássaro vermelho e dourado com o rabo de lindas plumas coloridas e um bico curvo de marfim a me observar com olhos negros estranhamente opacos emoldurados por óculos de aro-de-tartaruga empoleirado entre as grades da minha janela.
Não que eu estivesse exatamente esperando um corvo negro caindo aos pedaços pousado em cima de um busto de pedra, mas...
— Nevermore!
Bem, com certeza aquilo deveria ser ainda mais natural.
— Olá — comecei eu, e parei. Ótimo, já estava começando a falar com pássaros bizarros surgidos sabe-se lá de onde empoleirados sabe-se lá por quê no beiral da minha janela.
Eu devia começar a fazer análise.
— Hã! Quê? Ah! Olá! — respondeu o pássaro num pulo, piscando assustado e olhando em volta.
— Ah...
— Oh, puxa, que coisa, dormi no serviço de novo! — exclamou a ave abrindo as enormes asas e se ajeitando novamente — Perdoe-me, cara Carolina, mas, sabe como é, vida de Fênix não anda fácil nesses tempos modernos, a gente anda sempre pra lá e pra cá mandando mensagens e salvando vidas e ninguém acredita que a gente existe de verdade e a gente tem que se explicar e fazer e acontecer e na hora de alguém dizer alguma coisa a respeito nunca dizem “ah, foi a Fênix que me ajudou”, não, é claro que não; é sempre o herói, a princesa, o mago ou qualquer um desses humanos imbecis quem salvou o mundo e merece todas as honras e a Fênix, quem é essa tal Fênix?, esses bichos nem existem de verdade, é tudo de mentirinha, você ainda acredita em conto-de-fadas?, ah, mas que coisa, aí eu fico tão cansada, não tenho tempo nem para comprar umas lentes de contato, e... — parou para tomar fôlego e olhou para mim com olhos lacrimosos — Ah, tudo o que eu queria era poder ser um corvo preto.
Pisquei, aturdida com aquela enxurrada de palavras saídas do bico da tal Fênix.
— Hum — comecei eu. Não tinha tanta certeza de que deveria encorajá-la a falar de novo, a mim parecia ser ela um daqueles tipos de pessoas – ou aves – que preferia monólogos ao invés de diálogos. Em todo o caso, minha curiosidade falou mais alto do que o meu amor pelos meus ouvidos, e continuei — Então você - o senhor - a senhora - estava dormindo...?
— Ah, estava, sim! Viagens longas me deixam por demais cansada, sabe? Vai ver você não reparou porque eu desenvolvi uma técnica – rê rê rê não conta isso pra ninguém se não eu vou acabar demitida – de tirar uns cochilos com os olhos abertos, sabe, coisa bem fácil quando você é uma Fênix maravilhosa como eu e pode fazer praticamente qualquer coisa, mas, então, se descobrirem isso eu posso perder fácil o meu emprego, e... Ah! É! O meu emprego! É claro que eu não vim até aqui à toa, tenho coisas a lhe dizer! Puxa vida, que grande charlatã eu sou!
Ah. Ela tinha coisas a me dizer, então. É claro que tinha. Várias. A questão era, será que eu queria mesmo escutar?
— Eu já estava perdendo o fio da meada, você viu só como eu sou? Desculpa, nem todas as Fênix são assim, é que eu ando meio atarefada, sabe, e—
— Você disse que tinha coisas do seu trabalho a me dizer... — interrompi-a.
— Ah, é verdade! Então — disse, retirando um pedacinho amarelado de papel do meio de suas penas e começando a lê-lo — “Olá, Carol. Venho por meio desta (e espero do fundo do meu coração que esse estrupício penado consiga entregar-lhe esta mensagem...” Ei, eu não sou um estrupício penado! Sou uma grandiosa e imponente fênix, um animal mitológico muito raro e em extinção e...
— Hum, talvez você pudesse me entregar o bilhete...? — tentei.
— É, talvez eu até pudesse, mas acho que estrupícios penados não conseguem sequer entregar bilhetes para as outras pessoas, ou será que conseguem?
— Na verdade eu acho que conseguem, sim.
— Ora! — disse a Fênix, estalando o bico, amarrando a cara e entregando-me de muito mal gosto o tal pedaço de papel amarelado.
“Olá, Carol.
Venho por meio desta (e espero do fundo do meu coração que esse estrupício penado consiga entregar-lhe esta mensagem) avisar-lhe que uma Inspiração de cabelos azuis vestida com roupas coloridas e óculos escuros vermelhos foi encontrada jogada, completamente bêbada, em uma sarjeta da cidade de Roshgrangeon por um guarda decididamente mal-encarado que resolveu trancá-la em uma das duas celas da Nem Tão Grande Assim Prisão Quase Nunca Utilizada de Roshgrangeon. Como soube que sua Inspiração andava desaparecida e as características daquela encontrada assemelham-se muito com as dela, imaginei que talvez você quisesse vir procurá-la. Estou no momento em busca de algumas ervas mágicas na Grande Floresta Verde de Gorgafroom, que faz divisa com Roshgrangeon, qualquer coisa entre em contato.
Fique em paz.
Profeta Zé Apocalipse.”
— É — pensei, ao terminar de ler o bilhete — Acho melhor ir buscar minha toalha.
(Continua, obviamente. Quero dizer, pelo menos eu espero continuar, encontrando minha Inspiração onde o Profeta Zé Apocalipse disse que ela poderia estar.)
Não conseguia dormir. Olhei no relógio, passava das quatro da manhã.
— Ah. Como eu adoro passar calor — resmunguei enquanto levantava da cama e buscava em minha estante alguma coisa para ler — Hum, poderia ir tomar um banho gelado, talvez isso me fizesse bem — continuei dizendo, talvez para o desenho da Princesa da Babilônia que me espiava da capa do livro do Voltaire jogado em cima do meu criado-mudo, enquanto caminhava em direção à porta.
— Nevermore! — gritou alguma coisa às minhas costas.
Nevermore.
Sim, isso era, afinal, um som muito natural de se ouvir às quatro horas da manhã em meu apartamento.
Ainda se fosse no alto de uma torre sombria, durante uma noite escura, tempestuosa e gelada, ouvindo as ondas do mar chocarem-se com fúria nas pedras lá em baixo e lendo, à luz de uma única e parcialmente derretida vela, Edgar Allan Poe, vá lá.
Mas em uma madrugada de calor infernal no oitavo andar de um prédio amarelo e cor-de-rosa erguido há uns vinte e poucos anos num bairro afastado da cidade de São Paulo?
Sim, muito natural.
Virei-me lentamente, sem saber exatamente se queria ou não saber o que diabos teria gritado “Nevermore!” do beiral da minha janela.
E qual foi o meu espanto, então, ao ver um belíssimo pássaro vermelho e dourado com o rabo de lindas plumas coloridas e um bico curvo de marfim a me observar com olhos negros estranhamente opacos emoldurados por óculos de aro-de-tartaruga empoleirado entre as grades da minha janela.
Não que eu estivesse exatamente esperando um corvo negro caindo aos pedaços pousado em cima de um busto de pedra, mas...
— Nevermore!
Bem, com certeza aquilo deveria ser ainda mais natural.
— Olá — comecei eu, e parei. Ótimo, já estava começando a falar com pássaros bizarros surgidos sabe-se lá de onde empoleirados sabe-se lá por quê no beiral da minha janela.
Eu devia começar a fazer análise.
— Hã! Quê? Ah! Olá! — respondeu o pássaro num pulo, piscando assustado e olhando em volta.
— Ah...
— Oh, puxa, que coisa, dormi no serviço de novo! — exclamou a ave abrindo as enormes asas e se ajeitando novamente — Perdoe-me, cara Carolina, mas, sabe como é, vida de Fênix não anda fácil nesses tempos modernos, a gente anda sempre pra lá e pra cá mandando mensagens e salvando vidas e ninguém acredita que a gente existe de verdade e a gente tem que se explicar e fazer e acontecer e na hora de alguém dizer alguma coisa a respeito nunca dizem “ah, foi a Fênix que me ajudou”, não, é claro que não; é sempre o herói, a princesa, o mago ou qualquer um desses humanos imbecis quem salvou o mundo e merece todas as honras e a Fênix, quem é essa tal Fênix?, esses bichos nem existem de verdade, é tudo de mentirinha, você ainda acredita em conto-de-fadas?, ah, mas que coisa, aí eu fico tão cansada, não tenho tempo nem para comprar umas lentes de contato, e... — parou para tomar fôlego e olhou para mim com olhos lacrimosos — Ah, tudo o que eu queria era poder ser um corvo preto.
Pisquei, aturdida com aquela enxurrada de palavras saídas do bico da tal Fênix.
— Hum — comecei eu. Não tinha tanta certeza de que deveria encorajá-la a falar de novo, a mim parecia ser ela um daqueles tipos de pessoas – ou aves – que preferia monólogos ao invés de diálogos. Em todo o caso, minha curiosidade falou mais alto do que o meu amor pelos meus ouvidos, e continuei — Então você - o senhor - a senhora - estava dormindo...?
— Ah, estava, sim! Viagens longas me deixam por demais cansada, sabe? Vai ver você não reparou porque eu desenvolvi uma técnica – rê rê rê não conta isso pra ninguém se não eu vou acabar demitida – de tirar uns cochilos com os olhos abertos, sabe, coisa bem fácil quando você é uma Fênix maravilhosa como eu e pode fazer praticamente qualquer coisa, mas, então, se descobrirem isso eu posso perder fácil o meu emprego, e... Ah! É! O meu emprego! É claro que eu não vim até aqui à toa, tenho coisas a lhe dizer! Puxa vida, que grande charlatã eu sou!
Ah. Ela tinha coisas a me dizer, então. É claro que tinha. Várias. A questão era, será que eu queria mesmo escutar?
— Eu já estava perdendo o fio da meada, você viu só como eu sou? Desculpa, nem todas as Fênix são assim, é que eu ando meio atarefada, sabe, e—
— Você disse que tinha coisas do seu trabalho a me dizer... — interrompi-a.
— Ah, é verdade! Então — disse, retirando um pedacinho amarelado de papel do meio de suas penas e começando a lê-lo — “Olá, Carol. Venho por meio desta (e espero do fundo do meu coração que esse estrupício penado consiga entregar-lhe esta mensagem...” Ei, eu não sou um estrupício penado! Sou uma grandiosa e imponente fênix, um animal mitológico muito raro e em extinção e...
— Hum, talvez você pudesse me entregar o bilhete...? — tentei.
— É, talvez eu até pudesse, mas acho que estrupícios penados não conseguem sequer entregar bilhetes para as outras pessoas, ou será que conseguem?
— Na verdade eu acho que conseguem, sim.
— Ora! — disse a Fênix, estalando o bico, amarrando a cara e entregando-me de muito mal gosto o tal pedaço de papel amarelado.
“Olá, Carol.
Venho por meio desta (e espero do fundo do meu coração que esse estrupício penado consiga entregar-lhe esta mensagem) avisar-lhe que uma Inspiração de cabelos azuis vestida com roupas coloridas e óculos escuros vermelhos foi encontrada jogada, completamente bêbada, em uma sarjeta da cidade de Roshgrangeon por um guarda decididamente mal-encarado que resolveu trancá-la em uma das duas celas da Nem Tão Grande Assim Prisão Quase Nunca Utilizada de Roshgrangeon. Como soube que sua Inspiração andava desaparecida e as características daquela encontrada assemelham-se muito com as dela, imaginei que talvez você quisesse vir procurá-la. Estou no momento em busca de algumas ervas mágicas na Grande Floresta Verde de Gorgafroom, que faz divisa com Roshgrangeon, qualquer coisa entre em contato.
Fique em paz.
Profeta Zé Apocalipse.”
— É — pensei, ao terminar de ler o bilhete — Acho melhor ir buscar minha toalha.
(Continua, obviamente. Quero dizer, pelo menos eu espero continuar, encontrando minha Inspiração onde o Profeta Zé Apocalipse disse que ela poderia estar.)
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terça-feira, 9 de dezembro de 2008
O Primeiro Beijo
(Nota: Remexendo em gavetas velhas e mofadas em busca de alguma coisa da qual não me lembro mais o que era, encontrei alguns textos por mim escritos nos idos anos de 2004 e 2005.
Um deles é este aqui, escrito para uma aula de redação.
Como ficou bonitinho e estou meio sem criatividade ultimamente, resolvi postá-lo como memória aos tempos de colegial.
E é isso aí.)
***
A garota permanecia parada no jardim, as mãos pequeninas suando frio e as pernas ligeiramente tortas tremendo levemente. Percebia as figuras imóveis à sua volta, bancos e mesas misturando-se às plantas na escuridão iluminada apenas pela lâmpada elétrica acima da sua cabeça. Ouvia os risinhos femininos abafados vindo por todos os lados, mas fingia não saber do que se tratava.
Enfiou às pressas uma bala de menta na boca, enquanto tentava o mais dissimuladamente possível controlar os pensamentos frenéticos que lhe assaltavam o cérebro. Esperava por aquele momento há tanto tempo e, finalmente, aquele seria o dia! Por tantas vezes havia visto nos filmes e novelas aqueles beijos dos casais apaixonados, sonhando com o dia em que... e ela já era quase uma moça, havia acabado de completar seus doze anos!
Aquela festinha não fora por acaso. Tivera todo o cuidado de planejá-la com antecedência, com a ajuda de suas melhores amigas, para que caísse no dia certo em que ele pudesse comparecer. Arranjaram CDs de música para se dançar pertinho, fizeram bailinho, tudo conforme o figurino. Ela se arrumara como quase nunca fazia, passando batom, repartindo o cabelo encaracolado em duas tranças, escolhendo sua melhor roupinha. Até então ia tudo de acordo, eles já haviam dançado, já haviam conversado, suas amigas já haviam falado com os amigos dele...
E ali estava ele, bem à sua frente.
Seu pequeno pé batia insistentemente no chão, acompanhando o descompasso acelerado de seu coração. Começou a brincar com o cabelo numa vã tentativa de esconder a timidez, pensando em alguma coisa para dizer-lhe enquanto tentava tomar coragem para olhar bem diretamente para aqueles olhos tão bonitos e tão simpáticos. Sua voz, porém, parecia ter tirado férias, enquanto seus olhos pareciam ter sido hipnotizados pelo botão amarelo da camiseta do garoto.
Endireitou sua blusinha cor-de-rosa, então, percebendo que seu acompanhante, prendendo a respiração, dava um passo em sua direção. Olhou para o lado, enrubescendo, seu hálito de hortelã se misturando com o perfume cítrico do menino. Via que suas cabeças agora se aproximavam cada vez mais, estavam a cada segundo mais perto. Estavam cada vez mais perto, cada vez mais perto... podia contar as sardas do rosto dele, se quisesse... mas, obviamente, ela preferiu fazer outra coisa.
...
Um deles é este aqui, escrito para uma aula de redação.
Como ficou bonitinho e estou meio sem criatividade ultimamente, resolvi postá-lo como memória aos tempos de colegial.
E é isso aí.)
***
A garota permanecia parada no jardim, as mãos pequeninas suando frio e as pernas ligeiramente tortas tremendo levemente. Percebia as figuras imóveis à sua volta, bancos e mesas misturando-se às plantas na escuridão iluminada apenas pela lâmpada elétrica acima da sua cabeça. Ouvia os risinhos femininos abafados vindo por todos os lados, mas fingia não saber do que se tratava.
Enfiou às pressas uma bala de menta na boca, enquanto tentava o mais dissimuladamente possível controlar os pensamentos frenéticos que lhe assaltavam o cérebro. Esperava por aquele momento há tanto tempo e, finalmente, aquele seria o dia! Por tantas vezes havia visto nos filmes e novelas aqueles beijos dos casais apaixonados, sonhando com o dia em que... e ela já era quase uma moça, havia acabado de completar seus doze anos!
Aquela festinha não fora por acaso. Tivera todo o cuidado de planejá-la com antecedência, com a ajuda de suas melhores amigas, para que caísse no dia certo em que ele pudesse comparecer. Arranjaram CDs de música para se dançar pertinho, fizeram bailinho, tudo conforme o figurino. Ela se arrumara como quase nunca fazia, passando batom, repartindo o cabelo encaracolado em duas tranças, escolhendo sua melhor roupinha. Até então ia tudo de acordo, eles já haviam dançado, já haviam conversado, suas amigas já haviam falado com os amigos dele...
E ali estava ele, bem à sua frente.
Seu pequeno pé batia insistentemente no chão, acompanhando o descompasso acelerado de seu coração. Começou a brincar com o cabelo numa vã tentativa de esconder a timidez, pensando em alguma coisa para dizer-lhe enquanto tentava tomar coragem para olhar bem diretamente para aqueles olhos tão bonitos e tão simpáticos. Sua voz, porém, parecia ter tirado férias, enquanto seus olhos pareciam ter sido hipnotizados pelo botão amarelo da camiseta do garoto.
Endireitou sua blusinha cor-de-rosa, então, percebendo que seu acompanhante, prendendo a respiração, dava um passo em sua direção. Olhou para o lado, enrubescendo, seu hálito de hortelã se misturando com o perfume cítrico do menino. Via que suas cabeças agora se aproximavam cada vez mais, estavam a cada segundo mais perto. Estavam cada vez mais perto, cada vez mais perto... podia contar as sardas do rosto dele, se quisesse... mas, obviamente, ela preferiu fazer outra coisa.
...
quinta-feira, 27 de novembro de 2008
Considerações sobre o futuro de Caranguejo Excêntrico
Era por volta das três horas da madrugada e lá estava Caranguejo Excêntrico no alto de sua agora não tão inatingível – pelo menos para uma certa pessoa em particular – Torre de Marfim, sentada em sua poltrona verde favorita e observando despreocupadamente o Mundo Real com seu telescópio mágico tecido de sonho.
Tentava imaginar, apesar do aperto que aquilo lhe causava, o quê diabos estaria fazendo naquele exato momento dali a uns quatro ou cinco anos.
Ela sempre se arrependia quando começava a voltar seus pensamentos para esse tipo de coisa, era como se um balde de gelo fosse virado em seu estômago e um pelicano gigante fizesse ninho na sua cabeça. Mas agora não havia como voltar atrás, observar o distante Mundo Real empurrara suas já irrefreadas idéias para este caminho e elas sempre foram muito teimosas para que ela conseguisse reconduzi-las rápido o suficiente para um terreno seguro. Só lhe restava, então, pensar no que quer que suas idéias quisessem pensar, até que numa hora ou outra o pensamento se cansasse desse tema em específico e voltasse a atenção para coisas mais agradáveis.
Pois bem, o que seria de Caranguejo Excêntrico dali a uns cinco anos? Teria a Síndrome de Peter Pan ido embora? Poderia ela vestir-se com seus panos sóbrios e adultos sem precisar despir-se dos leves e coloridos véus da inocente fantasia infantil que tanto idolatrava? Conseguiria ela por fim estabilizar-se sem contudo cair na armadilha terrível e hedionda da estagnação? Estaria ela, pois, simplesmente feliz?
Caranguejo Excêntrico balançou a cabeça e serviu-se de uma xícara quadriculada de Berguelotes fresquinhos, apontando seu telescópio para suas psicodélicas e verdejantes terras de Manskaoosin.
Aquele, sim, era o lugar ideal para se viver. Em seu maravilhoso e surreal reino particular de Manskaoosin Caranguejo Excêntrico poderia ser exatamente quem gostaria de ser. Poderia conviver apenas com aquelas pessoas das quais ela apreciava a companhia, poderia ouvir apenas o tipo de música que lhe apetecia, poderia estudar precisamente o que lhe agradava. Ali ela era a Imperatriz. Ali, era única.
Mas ela sabia que seu lindo e confortável mundo paralelo não lhe era acessível senão nas poucas horas durante as quais o poderoso Sol deixava-se cair irresistivelmente hipnotizado pelos mistérios obscuros da sedutora Lua. E, mesmo que pudesse permanecer ali para sempre, será que seria realmente bom? Será que toda aquela sua fantasia maravilhosa não era perfeita demais justamente porque não passava, porque não poderia passar de fantasia?
Manskaoosin havia sido criada para que nela Caranguejo Excêntrico pudesse recarregar suas baterias, arejar seus pensamentos, enlouquecer sem de fato ficar louca. Era seu refúgio. E não havia como ser mais do que isso.
Caranguejo Excêntrico fechou os olhos, já irritantemente cheios d’água, e respirou profundamente algumas vezes.
Precisava tomar coragem para mergulhar de cabeça naquele tal Mundo Real, entretanto o último concentrado desse tipo parecia ter sido entregue ao Leão Covarde pelo Mágico de Oz há algum tempo e andava em falta nos mercados-vermelhos dos mundos paralelos.
— Bem, quem sabe um genérico funcione, não é? — disse para si mesma, espreguiçando-se preguiçosamente enquanto seus pensamentos começavam a entoar um sonolento mantra manskaoosinista e perdiam-se completamente daquele assunto desconfortável do início — Acho que vou tentar fazer bolhas quadradas de sabão, então.
...
“I'm gonna love you ‘till the stars fall from the sky for you and I”.
Tentava imaginar, apesar do aperto que aquilo lhe causava, o quê diabos estaria fazendo naquele exato momento dali a uns quatro ou cinco anos.
Ela sempre se arrependia quando começava a voltar seus pensamentos para esse tipo de coisa, era como se um balde de gelo fosse virado em seu estômago e um pelicano gigante fizesse ninho na sua cabeça. Mas agora não havia como voltar atrás, observar o distante Mundo Real empurrara suas já irrefreadas idéias para este caminho e elas sempre foram muito teimosas para que ela conseguisse reconduzi-las rápido o suficiente para um terreno seguro. Só lhe restava, então, pensar no que quer que suas idéias quisessem pensar, até que numa hora ou outra o pensamento se cansasse desse tema em específico e voltasse a atenção para coisas mais agradáveis.
Pois bem, o que seria de Caranguejo Excêntrico dali a uns cinco anos? Teria a Síndrome de Peter Pan ido embora? Poderia ela vestir-se com seus panos sóbrios e adultos sem precisar despir-se dos leves e coloridos véus da inocente fantasia infantil que tanto idolatrava? Conseguiria ela por fim estabilizar-se sem contudo cair na armadilha terrível e hedionda da estagnação? Estaria ela, pois, simplesmente feliz?
Caranguejo Excêntrico balançou a cabeça e serviu-se de uma xícara quadriculada de Berguelotes fresquinhos, apontando seu telescópio para suas psicodélicas e verdejantes terras de Manskaoosin.
Aquele, sim, era o lugar ideal para se viver. Em seu maravilhoso e surreal reino particular de Manskaoosin Caranguejo Excêntrico poderia ser exatamente quem gostaria de ser. Poderia conviver apenas com aquelas pessoas das quais ela apreciava a companhia, poderia ouvir apenas o tipo de música que lhe apetecia, poderia estudar precisamente o que lhe agradava. Ali ela era a Imperatriz. Ali, era única.
Mas ela sabia que seu lindo e confortável mundo paralelo não lhe era acessível senão nas poucas horas durante as quais o poderoso Sol deixava-se cair irresistivelmente hipnotizado pelos mistérios obscuros da sedutora Lua. E, mesmo que pudesse permanecer ali para sempre, será que seria realmente bom? Será que toda aquela sua fantasia maravilhosa não era perfeita demais justamente porque não passava, porque não poderia passar de fantasia?
Manskaoosin havia sido criada para que nela Caranguejo Excêntrico pudesse recarregar suas baterias, arejar seus pensamentos, enlouquecer sem de fato ficar louca. Era seu refúgio. E não havia como ser mais do que isso.
Caranguejo Excêntrico fechou os olhos, já irritantemente cheios d’água, e respirou profundamente algumas vezes.
Precisava tomar coragem para mergulhar de cabeça naquele tal Mundo Real, entretanto o último concentrado desse tipo parecia ter sido entregue ao Leão Covarde pelo Mágico de Oz há algum tempo e andava em falta nos mercados-vermelhos dos mundos paralelos.
— Bem, quem sabe um genérico funcione, não é? — disse para si mesma, espreguiçando-se preguiçosamente enquanto seus pensamentos começavam a entoar um sonolento mantra manskaoosinista e perdiam-se completamente daquele assunto desconfortável do início — Acho que vou tentar fazer bolhas quadradas de sabão, então.
...
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quinta-feira, 30 de outubro de 2008
Tutorial de Como Matar Uma Mariposa Gigante
Estávamos nós, eu e Thiago, calmamente sentados no sofá da casa da minha avó em Águas de São Pedro, altas horas da madrugada, assistindo ao Novo Tele Curso – que, aliás, é realmente muito novo, diga-se de passagem; as placas dos carros que passavam na gravação ainda eram amarelas, os ônibus eram brancos com uma linha vermelha no meio e as pessoas usavam aqueles penteados cheios lindos do começo dos anos 90 e aquelas calças de cintura alta coloridas – quando, de repente, eis que essa que aqui vos escreve nota alguma coisa muito preta e muito nojenta delicadamente (?!) pousada no vidro da janela.
— Thi... Aquilo ali é uma barata ou uma borboleta? — perguntei, temendo a resposta.
Como todos bem sabem, eu tenho um certo, hum, como poderia dizer?, receio de borboletas.
Na verdade, não é bem um receio.
É medo, mesmo.
Pavor.
E não tem explicação nenhuma pra isso, exceto que minha avó também tem.
Já me disseram que, de acordo com a psicanálise, pode ser que esse meu pé atrás em relação às borboletas (escrever aqui “meu pavor de” seria mais correto, mas faria com que me sentisse idiota, então, deixa pra lá) e qualquer coisa que voe de maneira geral seja porque eu tenho inveja da liberdade que esses animais têm por poderem voar.
Talvez.
Mas se voar for mesmo só uma questão de errar o chão, então...
Ah, deixa pra lá.
Voltando ao que aconteceu.
— Thi... Aquilo ali é uma barata ou uma borboleta?
— Acho que é uma borboleta... ai, não, acho que é uma mariposa!
Foi o tempo de processar a palavra “mariposa” e ligar o nome ao bicho que os dois corajosos urbaninhos puseram-se de pé num pulo e foram refugiar-se no extremo oposto da sala, quase que atrás da mesa.
— E agora? Você vai matar? — perguntei, em meu desespero crescente.
— Matar isso aí? Ai. Tem SBP? Ai.
Bom ter um namorado que tem tanto medo de mariposa quanto eu.
Lá foi a garota do cabelo roxo desbotado em busca da salvação e do alívio que se materializavam em um vidro de SBP.
— Olha, tá aqui. E o pano. — eu disse, entregando-lhe as armas, assumindo uma expressão de “eu confio que você vai voltar vivo” digna de esposa de soldado em véspera de batalha e tratando de sair rapidinho dali.
Pobre Thiago. Foi-se chegando de mansinho ali perto da janela, entrincheirando-se atrás do sofá, as armas em punho, uma expressão de determinação no rosto. Engatilhou o vidro de SBP e disparou uma, duas, três vezes, dando um passo para trás a cada vez que a mariposa esboçava qualquer sinal de tentar se mexer.
— Ô Thi... acho que você tem que espirrar mais em cima dela, não? — balbuciei do meu esconderijo na cozinha.
— Tô tentando!! — disse ele, e espirrou uma quarta vez. Oh, céus. Para quê. E não foi que a mariposa maldita resolveu levantar vôo?
Não deu nem uns três segundos e eu já estava escondida atrás da porta da lavanderia, com um cachorro poddle preto com cara de sono a me observar desaprovadoramente e um sentimento nada propício de que não deveria ter deixado meu pobre namorado lutando sozinho com aquele monstro.
Cadê sua coragem, Carolina!
Juntei minhas forças, ou o que sobrara delas, e voltei para o campo de batalha.
— Thi?
— É melhor você ficar aí. Ela tava voando; agora tá pendurada no sofá.
— Ai. Vou tentar abrir a porta pra ela sair!
Brilhante idéia, Carolina. Brilhante. Como você pretendia fazer aquilo sem passar por aquele monstro mutante?
Mas lá fui eu, exemplo da coragem feminina, pulando a qualquer tremida de asas da mariposa, abrir a porta. E consegui sair ilesa da missão, vivas para mim! Entretanto, quem não quis entrar na brincadeira foi a mariposa. Lá ela continuou, pousada no sofá, parece que zombando das nossas tentativas frustradas de fazê-la ir embora.
— Taca mais SBP! — eu disse.
Acabamos com o vidro de SBP; nada. Busquei outro. No que o Thiago abriu o frasco aquele demônio alado, talvez prevendo outra tentativa homicida da nossa parte, abriu suas enormes asas negras e amareladas e partiu para cima do coitado.
— AH! AHHH! ELA TÁ ME ATACANDO!!!
— AAAAHHHHH!!!!
Corremos para a cozinha. De lá, observávamos a astúcia da mariposa, voando calmamente pela sala. Depois de algum tempo, ela se escondeu em baixo da mesa.
— É agora! — eu disse — Mais SBP!
Espirramos mais SBP naquela mutação genética, que começou a se debater freneticamente. Esboçou mais algumas tentativas de vôo, frustradas pelo veneno, e pôs-se a cambalear pelo chão da sala.
— Ah, agora fica mais fácil, né? — eu disse.
— É, né... — respondeu o Thiago, e ficou me olhando — Mas ela ainda tá fugindo.
Depois de algumas tentativas frustradas de tiro ao alvo com meus chinelos, eis que Thiago teve a brilhante idéia de jogar o pano em cima da mariposa.
— Você joga — falei.
E ele jogou. Acertou em cheio as asonas pretas e nojentas da mariposa.
E lá ficou, aquele monstro diabólico e perverso, debatendo-se debaixo do pano de chão sujo.
— Você vai pegar a bichinha? — perguntei, suplicante, mas já sabendo a resposta.
— Há. De jeito nenhum. Deixa ela aí!
Mas eu não podia deixá-la ali.
Ela se debatia, o pano mexia, começava a me dar uma agonia danada de ver a agonia da pobrezinha.
Sim, ela era um monstro vindo direto do inferno, mas, ainda assim, a hora da morte de qualquer ser vivo deve ser respeitada.
E foi por isso, por piedade, que eu não tive dúvidas e pisei em cima do pano. Uma, duas, três vezes. Dancei um sapateado romeno em cima da bicha, até ter certeza de que ela não iria se mexer mais.
— Pronto. Agora você pega? — perguntei.
— Eu, heim!! — respondeu Thiago se afastando.
Então, como não havia mais jeito, fiz eu o trabalho sujo de me livrar do corpo. Deitei-o no jardim, com pano e tudo, da maneira mais rápida e limpa que pude encontrar.
E foi assim que se deu a batalha épica de dois urbaninhos guerreiros e extremamente corajosos com um terrível monstro alado saído direto dos últimos círculos do inferno.
Por favor, crianças, não tentem isso em casa. Um negócio desses pode causar danos psicológicos irreversíveis...
E fim.
— Thi... Aquilo ali é uma barata ou uma borboleta? — perguntei, temendo a resposta.
Como todos bem sabem, eu tenho um certo, hum, como poderia dizer?, receio de borboletas.
Na verdade, não é bem um receio.
É medo, mesmo.
Pavor.
E não tem explicação nenhuma pra isso, exceto que minha avó também tem.
Já me disseram que, de acordo com a psicanálise, pode ser que esse meu pé atrás em relação às borboletas (escrever aqui “meu pavor de” seria mais correto, mas faria com que me sentisse idiota, então, deixa pra lá) e qualquer coisa que voe de maneira geral seja porque eu tenho inveja da liberdade que esses animais têm por poderem voar.
Talvez.
Mas se voar for mesmo só uma questão de errar o chão, então...
Ah, deixa pra lá.
Voltando ao que aconteceu.
— Thi... Aquilo ali é uma barata ou uma borboleta?
— Acho que é uma borboleta... ai, não, acho que é uma mariposa!
Foi o tempo de processar a palavra “mariposa” e ligar o nome ao bicho que os dois corajosos urbaninhos puseram-se de pé num pulo e foram refugiar-se no extremo oposto da sala, quase que atrás da mesa.
— E agora? Você vai matar? — perguntei, em meu desespero crescente.
— Matar isso aí? Ai. Tem SBP? Ai.
Bom ter um namorado que tem tanto medo de mariposa quanto eu.
Lá foi a garota do cabelo roxo desbotado em busca da salvação e do alívio que se materializavam em um vidro de SBP.
— Olha, tá aqui. E o pano. — eu disse, entregando-lhe as armas, assumindo uma expressão de “eu confio que você vai voltar vivo” digna de esposa de soldado em véspera de batalha e tratando de sair rapidinho dali.
Pobre Thiago. Foi-se chegando de mansinho ali perto da janela, entrincheirando-se atrás do sofá, as armas em punho, uma expressão de determinação no rosto. Engatilhou o vidro de SBP e disparou uma, duas, três vezes, dando um passo para trás a cada vez que a mariposa esboçava qualquer sinal de tentar se mexer.
— Ô Thi... acho que você tem que espirrar mais em cima dela, não? — balbuciei do meu esconderijo na cozinha.
— Tô tentando!! — disse ele, e espirrou uma quarta vez. Oh, céus. Para quê. E não foi que a mariposa maldita resolveu levantar vôo?
Não deu nem uns três segundos e eu já estava escondida atrás da porta da lavanderia, com um cachorro poddle preto com cara de sono a me observar desaprovadoramente e um sentimento nada propício de que não deveria ter deixado meu pobre namorado lutando sozinho com aquele monstro.
Cadê sua coragem, Carolina!
Juntei minhas forças, ou o que sobrara delas, e voltei para o campo de batalha.
— Thi?
— É melhor você ficar aí. Ela tava voando; agora tá pendurada no sofá.
— Ai. Vou tentar abrir a porta pra ela sair!
Brilhante idéia, Carolina. Brilhante. Como você pretendia fazer aquilo sem passar por aquele monstro mutante?
Mas lá fui eu, exemplo da coragem feminina, pulando a qualquer tremida de asas da mariposa, abrir a porta. E consegui sair ilesa da missão, vivas para mim! Entretanto, quem não quis entrar na brincadeira foi a mariposa. Lá ela continuou, pousada no sofá, parece que zombando das nossas tentativas frustradas de fazê-la ir embora.
— Taca mais SBP! — eu disse.
Acabamos com o vidro de SBP; nada. Busquei outro. No que o Thiago abriu o frasco aquele demônio alado, talvez prevendo outra tentativa homicida da nossa parte, abriu suas enormes asas negras e amareladas e partiu para cima do coitado.
— AH! AHHH! ELA TÁ ME ATACANDO!!!
— AAAAHHHHH!!!!
Corremos para a cozinha. De lá, observávamos a astúcia da mariposa, voando calmamente pela sala. Depois de algum tempo, ela se escondeu em baixo da mesa.
— É agora! — eu disse — Mais SBP!
Espirramos mais SBP naquela mutação genética, que começou a se debater freneticamente. Esboçou mais algumas tentativas de vôo, frustradas pelo veneno, e pôs-se a cambalear pelo chão da sala.
— Ah, agora fica mais fácil, né? — eu disse.
— É, né... — respondeu o Thiago, e ficou me olhando — Mas ela ainda tá fugindo.
Depois de algumas tentativas frustradas de tiro ao alvo com meus chinelos, eis que Thiago teve a brilhante idéia de jogar o pano em cima da mariposa.
— Você joga — falei.
E ele jogou. Acertou em cheio as asonas pretas e nojentas da mariposa.
E lá ficou, aquele monstro diabólico e perverso, debatendo-se debaixo do pano de chão sujo.
— Você vai pegar a bichinha? — perguntei, suplicante, mas já sabendo a resposta.
— Há. De jeito nenhum. Deixa ela aí!
Mas eu não podia deixá-la ali.
Ela se debatia, o pano mexia, começava a me dar uma agonia danada de ver a agonia da pobrezinha.
Sim, ela era um monstro vindo direto do inferno, mas, ainda assim, a hora da morte de qualquer ser vivo deve ser respeitada.
E foi por isso, por piedade, que eu não tive dúvidas e pisei em cima do pano. Uma, duas, três vezes. Dancei um sapateado romeno em cima da bicha, até ter certeza de que ela não iria se mexer mais.
— Pronto. Agora você pega? — perguntei.
— Eu, heim!! — respondeu Thiago se afastando.
Então, como não havia mais jeito, fiz eu o trabalho sujo de me livrar do corpo. Deitei-o no jardim, com pano e tudo, da maneira mais rápida e limpa que pude encontrar.
E foi assim que se deu a batalha épica de dois urbaninhos guerreiros e extremamente corajosos com um terrível monstro alado saído direto dos últimos círculos do inferno.
Por favor, crianças, não tentem isso em casa. Um negócio desses pode causar danos psicológicos irreversíveis...
E fim.
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quarta-feira, 10 de setembro de 2008
08.08.08 IV - Finalmente Final
- Hum, pelo jeito ela sabe mais do que a gente imaginava – disse Tod enquanto dava uma longa tragada no cigarro – Sente-se, Carol – continuou, encarando-me – E pegue mais uma Heineken. Acho que temos muito que conversar.
Sentei-me num pufe colorido, retirando uma revista da Turma da Mônica que ali estava e apossando-me de mais uma garrafa da Heineken.
Tentei colocar meus pensamentos em ordem, o que era tarefa difícil, uma vez que três seres bastante peculiares ainda me observavam com seus grandes olhos coloridos.
Bebi alguns goles da cerveja.
Certo. Aqueles eram os famosos (ou não tão famosos assim) Sacanas Que Controlam O Destino Da Humanidade. Chamavam-se Tod, Bob e Zod. Bebiam Heinkens, jogavan Play Station, liam histórias em quadrinhos e não deviam ser muito chegados numa faxina.
Sim, aquilo explicava muita coisa sobre o destino da humanidade.
- Então, Carol - começou Tod - Nós somos Aqueles Que Foram Criados Antes Mesmo Da Criação, entende?
- Há quem diga que nós mesmos nos criamos - disse Bob - Mas eu não tenho tanta certeza disso, visto que não nos lembramos de como fizemos isso.
- Sim, o que é uma pena - falou Zod - Você pode imaginar o que é passar uma eternidade só com esses dois marmanjos aí?
- Hum... deve ser... - tentei dizer.
- Um saco - completou o ser com moicano - Por isso as Heinekens, as revistas, o vídeo-game...
Aquilo começava a me soar extremamente interessante. Explicava muitas coisas, aliás.
Bebi mais cerveja.
- Pois é - disse Tod - Foi então que, durante um dia frio e cinzento, daqueles em que nada se tem e nada se pensa pra fazer...
- E que resolvemos chamar de Domingo - complementou Zod.
- ...decidimos que continuar a viver daquele jeito não ia dar. Precisávamos urgentemente de alguma coisa que nos entretesse, sabe, que nos tirasse daquela monotonia...
- ...e então eu resolvi ir até a janela tomar um pouco de ar - disse Bob - porque o Zod acendia um cigarro atrás do outro - continuou, virando para o amigo e fazendo fazendo uma careta - e meu pulmão não é cinzeiro, saca...
- ...aí - disse Tod acendendo outro cigarro e soltando a fumaça na cara de Bob - essa bicha aí virou, empolgadíssimo, para mim e para o Zod e disse...
- Humanidade!
- Eu perguntei, obviamente - disse Zod - que porra era aquela que ele estava gritando...
- E eu respondi que não sabia, também, mas que tinha jeito de chamar "humanidade".
Eu precisava urgentemente de mais uma garrafa de Heineken.
- O que o Bob, aí, chamou de "Humanidade" - disse Tod - Eram serezinhos muito peculiares, bem parecidos com você, aliás...
- Só que beeeem mais peludos - interviu Zod.
- ... e que vieram, como soubemos depois de analisar um deles atenciosamente, da mistura das cinzas dos meus cigarros e da terra do nosso vaso de petúnias com um pouco da nossa saliva e da cerveja que o Bob desperdiçou porque estava bêbado e jogou a garrafa pela janela.
- Por quê cargas d'água essa mistura bizarra resultou em serezinhos tão divertidos eu não tenho a mínima idéia - falou Bob - Mas vocês tinham uma cara de "Humanidade" a primeira vez que os vi... eu sabia que esse nome ia pegar.
Eu estava embasbacada com aquilo que havia acabado de ouvir. Tentei pronunciar alguma coisa, mas minha voz entrara em greve por melhores condições de trabalho e encontrava-se no momento acampada em minha laringe segurando um cartazinho em branco e comendo pipocas.
Abri mais uma garrafa de Heineken.
- Aí acho que você já sacou o que aconteceu depois - começou Zod - O Bob teve a brilhante idéia da gente influenciar a vida da "humanidade" e ver o que acontecia com eles. Isso nos propiciou séculos e mais séculos de diversão...
- É bem verdade que algumas vezes eles fugiam do nosso controle - disse Tod - E se matavam uns aos outros sem que nós mandássemos...
- Mas temos que admitir que isso dava um sabor a mais para a diversão - completou Zod piscando o olho.
- Agora eu só queria saber o quê diabos você está fazendo aqui - disse Bob arqueando as sobrancelhas.
Ah, como se eu soubesse!
- É, então - comecei a dizer - Eu também gostaria de saber. A última coisa da qual me lembro é estar debaixo de uma samambaia com meu Guru Espiritual, o Profeta Zé Apocalipse...
- Ah, sim, seu amigo barbudo! - exclamou Zod - Gente boa, ele. As vezes dá um pulo aqui em cima pra gente beber uma breja, ou um café.
- Devíamos ter imaginado que era coisa dele - comentou Tod - Ainda está se escondendo d'ELES?
- Sim, sim - eu disse - o Zé está sempre se escondendo d'ELES...
- E é a melhor coisa que ele faz - disse Bob.
Nesse momento uma nuvem de fumaça púrpura tomou o aposento e surgiu, de dentro dela, meu queridíssimo Guru Espiritual Zé Apocalipse e sua inseparável toalha cor-de-laranja.
- Saudações, rapazes - disse ele - Espero que não tenha causado contrangimento o fato de ter deixado minha protegida aqui com os senhores sem tê-los avisado previamente.
- Ah, relaxa, Zé - disse Bob - Ficamos com receio no começo, mas cê tá ligado que adoramos conversar com alguém, né?
- Principalmente se for um daqueles lá - completou Zod.
- Muito que bem - disse o Zé - Eu precisei resolver alguns assuntos com a abertura do Portal de Órion e era extremamente necessário que ela ficasse em segurança. Bom, acho que é hora de irmos, não acha, Carolina?
- É, acho que sim... - respondi, meio aérea.
- Bem, até a próxima Zé! Foi um prazer conhecê-la, Carol. Sempre que quiser beber uma breja com a gente esteja a vontade, viu?
- Obrigada...
- Até mais - disse Zé, pegando alguma coisa dentro de sua bolsa - e obrigado pelos peixes!
Mais uma vez aquela sensação de estar sendo sugada por um cano bem menor do que meu corpo acometeu meus sentidos e, no instante seguinte, estava eu em casa novamente, totalmente sozinha - e ligeiramente bêbada.
(FIM - finalmente xD)
Sentei-me num pufe colorido, retirando uma revista da Turma da Mônica que ali estava e apossando-me de mais uma garrafa da Heineken.
Tentei colocar meus pensamentos em ordem, o que era tarefa difícil, uma vez que três seres bastante peculiares ainda me observavam com seus grandes olhos coloridos.
Bebi alguns goles da cerveja.
Certo. Aqueles eram os famosos (ou não tão famosos assim) Sacanas Que Controlam O Destino Da Humanidade. Chamavam-se Tod, Bob e Zod. Bebiam Heinkens, jogavan Play Station, liam histórias em quadrinhos e não deviam ser muito chegados numa faxina.
Sim, aquilo explicava muita coisa sobre o destino da humanidade.
- Então, Carol - começou Tod - Nós somos Aqueles Que Foram Criados Antes Mesmo Da Criação, entende?
- Há quem diga que nós mesmos nos criamos - disse Bob - Mas eu não tenho tanta certeza disso, visto que não nos lembramos de como fizemos isso.
- Sim, o que é uma pena - falou Zod - Você pode imaginar o que é passar uma eternidade só com esses dois marmanjos aí?
- Hum... deve ser... - tentei dizer.
- Um saco - completou o ser com moicano - Por isso as Heinekens, as revistas, o vídeo-game...
Aquilo começava a me soar extremamente interessante. Explicava muitas coisas, aliás.
Bebi mais cerveja.
- Pois é - disse Tod - Foi então que, durante um dia frio e cinzento, daqueles em que nada se tem e nada se pensa pra fazer...
- E que resolvemos chamar de Domingo - complementou Zod.
- ...decidimos que continuar a viver daquele jeito não ia dar. Precisávamos urgentemente de alguma coisa que nos entretesse, sabe, que nos tirasse daquela monotonia...
- ...e então eu resolvi ir até a janela tomar um pouco de ar - disse Bob - porque o Zod acendia um cigarro atrás do outro - continuou, virando para o amigo e fazendo fazendo uma careta - e meu pulmão não é cinzeiro, saca...
- ...aí - disse Tod acendendo outro cigarro e soltando a fumaça na cara de Bob - essa bicha aí virou, empolgadíssimo, para mim e para o Zod e disse...
- Humanidade!
- Eu perguntei, obviamente - disse Zod - que porra era aquela que ele estava gritando...
- E eu respondi que não sabia, também, mas que tinha jeito de chamar "humanidade".
Eu precisava urgentemente de mais uma garrafa de Heineken.
- O que o Bob, aí, chamou de "Humanidade" - disse Tod - Eram serezinhos muito peculiares, bem parecidos com você, aliás...
- Só que beeeem mais peludos - interviu Zod.
- ... e que vieram, como soubemos depois de analisar um deles atenciosamente, da mistura das cinzas dos meus cigarros e da terra do nosso vaso de petúnias com um pouco da nossa saliva e da cerveja que o Bob desperdiçou porque estava bêbado e jogou a garrafa pela janela.
- Por quê cargas d'água essa mistura bizarra resultou em serezinhos tão divertidos eu não tenho a mínima idéia - falou Bob - Mas vocês tinham uma cara de "Humanidade" a primeira vez que os vi... eu sabia que esse nome ia pegar.
Eu estava embasbacada com aquilo que havia acabado de ouvir. Tentei pronunciar alguma coisa, mas minha voz entrara em greve por melhores condições de trabalho e encontrava-se no momento acampada em minha laringe segurando um cartazinho em branco e comendo pipocas.
Abri mais uma garrafa de Heineken.
- Aí acho que você já sacou o que aconteceu depois - começou Zod - O Bob teve a brilhante idéia da gente influenciar a vida da "humanidade" e ver o que acontecia com eles. Isso nos propiciou séculos e mais séculos de diversão...
- É bem verdade que algumas vezes eles fugiam do nosso controle - disse Tod - E se matavam uns aos outros sem que nós mandássemos...
- Mas temos que admitir que isso dava um sabor a mais para a diversão - completou Zod piscando o olho.
- Agora eu só queria saber o quê diabos você está fazendo aqui - disse Bob arqueando as sobrancelhas.
Ah, como se eu soubesse!
- É, então - comecei a dizer - Eu também gostaria de saber. A última coisa da qual me lembro é estar debaixo de uma samambaia com meu Guru Espiritual, o Profeta Zé Apocalipse...
- Ah, sim, seu amigo barbudo! - exclamou Zod - Gente boa, ele. As vezes dá um pulo aqui em cima pra gente beber uma breja, ou um café.
- Devíamos ter imaginado que era coisa dele - comentou Tod - Ainda está se escondendo d'ELES?
- Sim, sim - eu disse - o Zé está sempre se escondendo d'ELES...
- E é a melhor coisa que ele faz - disse Bob.
Nesse momento uma nuvem de fumaça púrpura tomou o aposento e surgiu, de dentro dela, meu queridíssimo Guru Espiritual Zé Apocalipse e sua inseparável toalha cor-de-laranja.
- Saudações, rapazes - disse ele - Espero que não tenha causado contrangimento o fato de ter deixado minha protegida aqui com os senhores sem tê-los avisado previamente.
- Ah, relaxa, Zé - disse Bob - Ficamos com receio no começo, mas cê tá ligado que adoramos conversar com alguém, né?
- Principalmente se for um daqueles lá - completou Zod.
- Muito que bem - disse o Zé - Eu precisei resolver alguns assuntos com a abertura do Portal de Órion e era extremamente necessário que ela ficasse em segurança. Bom, acho que é hora de irmos, não acha, Carolina?
- É, acho que sim... - respondi, meio aérea.
- Bem, até a próxima Zé! Foi um prazer conhecê-la, Carol. Sempre que quiser beber uma breja com a gente esteja a vontade, viu?
- Obrigada...
- Até mais - disse Zé, pegando alguma coisa dentro de sua bolsa - e obrigado pelos peixes!
Mais uma vez aquela sensação de estar sendo sugada por um cano bem menor do que meu corpo acometeu meus sentidos e, no instante seguinte, estava eu em casa novamente, totalmente sozinha - e ligeiramente bêbada.
(FIM - finalmente xD)
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domingo, 20 de julho de 2008
Borboleta Cor-de-rosa
O grande senhor de bigodes negros acordou no meio da noite, com uma dor-de-cabeça terrível.
Levantou-se vagarosamente, apertando as têmporas com suas mãos gordas e, piscando seus lacrimejantes olhos castanhos, cambaleou até a cozinha cirurgicamente limpa, onde, então, tomou duas aspirinas muito brancas e muito redondas.
Estivera sonhando com o quê, mesmo?
Parecia algo relacionado a borboletas, mas ele não estava muito certo. A única coisa da qual se lembrava era um par de asas cor-de-rosa, mas isso não fazia muito sentido. Fazia?
Dirigiu-se para a sala-de-estar e deixou-se afundar pesadamente nas almofadas de uma poltrona de veludo vermelho, muito fofa e muito alta.
Parecia, por algum motivo inexplicável, ser de vital importância que se lembrasse do quê diabos estivera sonhando.
Fechou os olhos e tentou se lembrar.
Um par de asas de borboleta cor-de-rosa. Sim. Era cor-de-rosa, disso tinha certeza. E também que era um par de asas. E não haveria por acaso um jardim? Não, achava que o que havia era um castelo. Sim, um castelo de cristal, não era? Ou era uma bola de cristal? Havia mesmo alguma coisa de cristal? Agora ele não tinha sequer tanta certeza de que as asas eram mesmo cor-de-rosas... será que eram, mesmo, asas?
Levantou-se irritado e resolveu procurar pelo controle remoto da televisão.
- Que diabos, Nogueira! - reclamou consigo mesmo - Você é um homem de negócios tão bem-sucedido, vive se gabando de que nunca nenhum mínimo detalhe, de qualquer coisa que seja, lhe passou despercebido; e agora não consegue sequer se lembrar do que estava sonhando!?
Deu um pontapé dolorido em sua mesinha de centro, fazendo com que alguma coisa bem pequenina saísse voando dalí.
- Uma... uma borboleta?
A pequena borboleta cor-de-rosa voou alegre e indiferente por todo o recinto, pousando delicadamente, após alguns instantes, em cima de um cinzeiro de cristal.
Aquela borboleta, por conta de alguma coisa daquelas que nunca se sabe nem nunca se vai saber o que exatamente é, ocasionou no senhor Nogueira uma avalanche de pensamentos e lembranças que lhe atingiu como um soco no estômago, fazendo-o cair, completamente entorpecido, com um baque surdo no chão.
Ele, aquele que nunca precisou de ninguém pra alcançar o sucesso que possuía hoje, aquele que se vangloriava por haver conquistado tudo às custas de um trabalho duro e esforçado, aquele que se achava independente e auto-suficiente; agora estava caído no chão, completamente sozinho, ao lado de móveis antiqüíssimos e caríssimos, de eletroeletrônicos de última geração e de tapetes e cortinas de luxo, chorando feito um bebê.
- O que será... por quê... eu... só sei... liberdade... - balbuciava.
Ergueu a cabeça do chão e olhou, por sobre a mesa, a pequena borboleta cor-de-rosa, imóvel, ainda pousada em cima do cinzeiro de cristal. Ficou assim pelo que pareceram horas, completamente parado, apenas observando.
Finalmente levantou-se com cuidado e dirigiu-se até ela.
Observou-a durante mais alguns instantes; ela continuava imóvel.
Prendendo a respiração, com uma expressão indefinível no olhar, decidiu-se. Levantou uma de suas grandes e gordas mãos e baixou-a, num golpe rápido e pesado, esmagando a borboleta cor-de-rosa antes mesmo que ela tivesse tempo de perceber o que estava se passando.
Lançando uma última olhada para a poça vermelha e rosa que sobrara em seu cinzeiro de cristal, virou as costas e dirigiu-se para o seu quarto.
Agora não importava mais o que iria ou não sonhar.
Sua dor-de-cabeça havia passado.
...
"Trancado dentro de mim mesmo eu sou um canceriano sem lar"
Levantou-se vagarosamente, apertando as têmporas com suas mãos gordas e, piscando seus lacrimejantes olhos castanhos, cambaleou até a cozinha cirurgicamente limpa, onde, então, tomou duas aspirinas muito brancas e muito redondas.
Estivera sonhando com o quê, mesmo?
Parecia algo relacionado a borboletas, mas ele não estava muito certo. A única coisa da qual se lembrava era um par de asas cor-de-rosa, mas isso não fazia muito sentido. Fazia?
Dirigiu-se para a sala-de-estar e deixou-se afundar pesadamente nas almofadas de uma poltrona de veludo vermelho, muito fofa e muito alta.
Parecia, por algum motivo inexplicável, ser de vital importância que se lembrasse do quê diabos estivera sonhando.
Fechou os olhos e tentou se lembrar.
Um par de asas de borboleta cor-de-rosa. Sim. Era cor-de-rosa, disso tinha certeza. E também que era um par de asas. E não haveria por acaso um jardim? Não, achava que o que havia era um castelo. Sim, um castelo de cristal, não era? Ou era uma bola de cristal? Havia mesmo alguma coisa de cristal? Agora ele não tinha sequer tanta certeza de que as asas eram mesmo cor-de-rosas... será que eram, mesmo, asas?
Levantou-se irritado e resolveu procurar pelo controle remoto da televisão.
- Que diabos, Nogueira! - reclamou consigo mesmo - Você é um homem de negócios tão bem-sucedido, vive se gabando de que nunca nenhum mínimo detalhe, de qualquer coisa que seja, lhe passou despercebido; e agora não consegue sequer se lembrar do que estava sonhando!?
Deu um pontapé dolorido em sua mesinha de centro, fazendo com que alguma coisa bem pequenina saísse voando dalí.
- Uma... uma borboleta?
A pequena borboleta cor-de-rosa voou alegre e indiferente por todo o recinto, pousando delicadamente, após alguns instantes, em cima de um cinzeiro de cristal.
Aquela borboleta, por conta de alguma coisa daquelas que nunca se sabe nem nunca se vai saber o que exatamente é, ocasionou no senhor Nogueira uma avalanche de pensamentos e lembranças que lhe atingiu como um soco no estômago, fazendo-o cair, completamente entorpecido, com um baque surdo no chão.
Ele, aquele que nunca precisou de ninguém pra alcançar o sucesso que possuía hoje, aquele que se vangloriava por haver conquistado tudo às custas de um trabalho duro e esforçado, aquele que se achava independente e auto-suficiente; agora estava caído no chão, completamente sozinho, ao lado de móveis antiqüíssimos e caríssimos, de eletroeletrônicos de última geração e de tapetes e cortinas de luxo, chorando feito um bebê.
- O que será... por quê... eu... só sei... liberdade... - balbuciava.
Ergueu a cabeça do chão e olhou, por sobre a mesa, a pequena borboleta cor-de-rosa, imóvel, ainda pousada em cima do cinzeiro de cristal. Ficou assim pelo que pareceram horas, completamente parado, apenas observando.
Finalmente levantou-se com cuidado e dirigiu-se até ela.
Observou-a durante mais alguns instantes; ela continuava imóvel.
Prendendo a respiração, com uma expressão indefinível no olhar, decidiu-se. Levantou uma de suas grandes e gordas mãos e baixou-a, num golpe rápido e pesado, esmagando a borboleta cor-de-rosa antes mesmo que ela tivesse tempo de perceber o que estava se passando.
Lançando uma última olhada para a poça vermelha e rosa que sobrara em seu cinzeiro de cristal, virou as costas e dirigiu-se para o seu quarto.
Agora não importava mais o que iria ou não sonhar.
Sua dor-de-cabeça havia passado.
...
"Trancado dentro de mim mesmo eu sou um canceriano sem lar"
quinta-feira, 26 de junho de 2008
A lagartixa
A lagartixa permanecia estática no alto da parede.
De sua posição elevada possuía uma visão privilegiada do recinto.
Observava atenta o ir e vir daqueles seres enormes, desengonçados e de difícil compreenção.
Eles estavam sempre por ali, por lá, por todos os lugares. Era impossível ir à qualquer lugar sem encontrar pelo menos um deles, nem que fossem daqueles menorzinhos com cara de bolacha que ela imaginava que fossem os filhotes.
Isso se aqueles seres realmente fossem bichos que pudessem ter filhotes.
Porque se fossem mesmo bichos, eram bichos tão... tão inúteis!
Os outros bichos dos quais ela tinha conhecimento pelo menos serviam para alguma coisa na grande cadeia alimentar do ciclo da natureza.
Agora, aqueles lá...
Eles apareciam, iam, vinham, faziam, aconteciam, desapareciam e não serviam pra nada.
Ela nunca havia realmente conseguido entender qual era o objetivo da existência daqueles seres tão grandes, tão desengonçados e tão sem-graça.
Vai ver que eles...
Observou então uma barata muito gorda e com aparência muito apetitosa.
Sem pensar duas vezes, resolveu deixar essas pseudo-filosofias de lado preparar-se para exercer mais uma vez o seu papel na cadeia alimentar.
"Fantasiando um segredo, o ponto onde quer chegar"
De sua posição elevada possuía uma visão privilegiada do recinto.
Observava atenta o ir e vir daqueles seres enormes, desengonçados e de difícil compreenção.
Eles estavam sempre por ali, por lá, por todos os lugares. Era impossível ir à qualquer lugar sem encontrar pelo menos um deles, nem que fossem daqueles menorzinhos com cara de bolacha que ela imaginava que fossem os filhotes.
Isso se aqueles seres realmente fossem bichos que pudessem ter filhotes.
Porque se fossem mesmo bichos, eram bichos tão... tão inúteis!
Os outros bichos dos quais ela tinha conhecimento pelo menos serviam para alguma coisa na grande cadeia alimentar do ciclo da natureza.
Agora, aqueles lá...
Eles apareciam, iam, vinham, faziam, aconteciam, desapareciam e não serviam pra nada.
Ela nunca havia realmente conseguido entender qual era o objetivo da existência daqueles seres tão grandes, tão desengonçados e tão sem-graça.
Vai ver que eles...
Observou então uma barata muito gorda e com aparência muito apetitosa.
Sem pensar duas vezes, resolveu deixar essas pseudo-filosofias de lado preparar-se para exercer mais uma vez o seu papel na cadeia alimentar.
"Fantasiando um segredo, o ponto onde quer chegar"
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quarta-feira, 16 de abril de 2008
Epifania
Uma cidade, uma bairro, uma rua.
Gente, fumaça, barulho, carro, ônibus, caminhão, prédio, ponte, avião, muro.
Pessoas cabisbaixas, isoladas em seus mundos particulares, apreensivas, apressadas, tristes, bravas, correndo, correndo, correndo.
Uma escadaria suja, poças líquidas com procedência desconhecida, alguma palavra ilegível pintada na parede.
Cinza, chumbo, asfalto, branco, preto, marrom, amarelado, esverdeado, desbotado, cor-de-rosa.
Cor-de-rosa?
Flores cor-de-rosa chapadas num céu incolor, emolduradas por estruturas acinzentadas, seguras por cordas emborrachadas e observadas por mentalidades metálicas.
Tudo pareceu fazer sentido, ficar colorido, ser desigualmente igual, anormalmente perfeito e perfeitamente anormal.
Segundos de uma visão única, muito movimentada e completamente parada, destoante, deslumbrante, desoladoramente fugaz.
No momento seguinte era só um mais um ipê cor-de-rosa florescendo em meio a prédios e carros na cidade de São Paulo.
...
"Você é bem grandinho, já pode se cuidar/ Ir seguindo seu caminho, sempre errando até um dia acertar"
Gente, fumaça, barulho, carro, ônibus, caminhão, prédio, ponte, avião, muro.
Pessoas cabisbaixas, isoladas em seus mundos particulares, apreensivas, apressadas, tristes, bravas, correndo, correndo, correndo.
Uma escadaria suja, poças líquidas com procedência desconhecida, alguma palavra ilegível pintada na parede.
Cinza, chumbo, asfalto, branco, preto, marrom, amarelado, esverdeado, desbotado, cor-de-rosa.
Cor-de-rosa?
Flores cor-de-rosa chapadas num céu incolor, emolduradas por estruturas acinzentadas, seguras por cordas emborrachadas e observadas por mentalidades metálicas.
Tudo pareceu fazer sentido, ficar colorido, ser desigualmente igual, anormalmente perfeito e perfeitamente anormal.
Segundos de uma visão única, muito movimentada e completamente parada, destoante, deslumbrante, desoladoramente fugaz.
No momento seguinte era só um mais um ipê cor-de-rosa florescendo em meio a prédios e carros na cidade de São Paulo.
...
"Você é bem grandinho, já pode se cuidar/ Ir seguindo seu caminho, sempre errando até um dia acertar"
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segunda-feira, 14 de abril de 2008
Episódio de Coração Gelado
. Coração Gelado estava apoiado na grade de sua varanda circular, no alto da Gloriosa Torre de Marfim, fumando um cigarro e observando, melancólico, a paisagem ao seu redor.
. - Coração Gelado!! – gritou-lhe uma voz vinda do jardim. Era Sigmund Solfieri, Jardineiro-Mor dos Castelos de Manskaoosin.
. - Sigmund!
. - Coração Gelado! Disseram as más línguas que o senhor havia derretido.
. - Pois é. Endureci, de novo. O passado se repetiu, a Rotina se instalou na minha poltrona favorita... E eu cansei – acrescentou, soltando anéis de fumaça.
. - Hum. Posso fazer alguma coisa pelo senhor?
. - Na verdade pode, sim. Suba aqui, acompanhe-me numa bebedeira.
. - Ora, com todo o prazer!
"Eu vejo o futuro repetir o passado, eu vejo um museu de grandes novidades..."
. - Coração Gelado!! – gritou-lhe uma voz vinda do jardim. Era Sigmund Solfieri, Jardineiro-Mor dos Castelos de Manskaoosin.
. - Sigmund!
. - Coração Gelado! Disseram as más línguas que o senhor havia derretido.
. - Pois é. Endureci, de novo. O passado se repetiu, a Rotina se instalou na minha poltrona favorita... E eu cansei – acrescentou, soltando anéis de fumaça.
. - Hum. Posso fazer alguma coisa pelo senhor?
. - Na verdade pode, sim. Suba aqui, acompanhe-me numa bebedeira.
. - Ora, com todo o prazer!
"Eu vejo o futuro repetir o passado, eu vejo um museu de grandes novidades..."
sábado, 15 de março de 2008
Sinos
St Piter's H2O.
Quase nove horas da noite.
Vontade de não-sei-o-quê.
Abriu a janela e sentiu os últimos raios de Sol tocarem-lhe a fronte.
O céu estava cor-de-rosa, dourado, vermelho, violeta, azul, anil.
Um caleidoscópio de imagens invadiu seus olhos, dissolvendo-se num maremoto de formas coloridas.
Ouvia sinos.
Já era noite.
A Lua, crescente e canceriana, observava o mundo com a nostalgia dos Loucos.
O latido longínqüo dos cachorros e o cricilar tímido de alguns grilos eram os únicos sons que se ouviam naquela pequena cidade do interior.
E os sinos.
Os irritantes e insistentes sinos.
A madrugada ia solta.
Ela corria sem rumo pela ruas desertas e esburacadas da cidade, sob o olhar alaranjadamente desaprovador das lâmpadas elétricas.
O som dos sinos ficava cada vez maior, as badaladas ecoavam assustadoramente altas em seus ouvidos.
E ela corria.
Começara a chover.
A imagem da grande igreja gótica iluminou seus olhos por alguns instantes, e ela parou.
A água escorria dos seus cabelos, seus sapatos estavam encharcados, ela tremia de frio.
Subiu a escadaria da igreja e abriu com estrondo a grande porta de entrada, quebrando a corrente que a mantinha fechada.
E os sinos, os desesperadores e insistentes sinos, continuavam a tocar.
No dia seguinte a policia local encontrou a garota no altar da pequena capela da cidade.
Uma poça de sangue a circundava, havia talhos em seus pulsos.
Sua expressão era serena.
E os sinos, os alegres e simpáticos sinos, finalmente pararam de tocar.
***
"I have become a confortably numb"
Quase nove horas da noite.
Vontade de não-sei-o-quê.
Abriu a janela e sentiu os últimos raios de Sol tocarem-lhe a fronte.
O céu estava cor-de-rosa, dourado, vermelho, violeta, azul, anil.
Um caleidoscópio de imagens invadiu seus olhos, dissolvendo-se num maremoto de formas coloridas.
Ouvia sinos.
Já era noite.
A Lua, crescente e canceriana, observava o mundo com a nostalgia dos Loucos.
O latido longínqüo dos cachorros e o cricilar tímido de alguns grilos eram os únicos sons que se ouviam naquela pequena cidade do interior.
E os sinos.
Os irritantes e insistentes sinos.
A madrugada ia solta.
Ela corria sem rumo pela ruas desertas e esburacadas da cidade, sob o olhar alaranjadamente desaprovador das lâmpadas elétricas.
O som dos sinos ficava cada vez maior, as badaladas ecoavam assustadoramente altas em seus ouvidos.
E ela corria.
Começara a chover.
A imagem da grande igreja gótica iluminou seus olhos por alguns instantes, e ela parou.
A água escorria dos seus cabelos, seus sapatos estavam encharcados, ela tremia de frio.
Subiu a escadaria da igreja e abriu com estrondo a grande porta de entrada, quebrando a corrente que a mantinha fechada.
E os sinos, os desesperadores e insistentes sinos, continuavam a tocar.
No dia seguinte a policia local encontrou a garota no altar da pequena capela da cidade.
Uma poça de sangue a circundava, havia talhos em seus pulsos.
Sua expressão era serena.
E os sinos, os alegres e simpáticos sinos, finalmente pararam de tocar.
***
"I have become a confortably numb"
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sábado, 8 de março de 2008
Olívia.
0000Três horas da manhã. Olívia revirava-se nos lençóis sem conseguir dormir. Pensamentos desconexos assaltavam-lhe a mente, um mais peculiar que o outro, um mais absurdo que o outro. Um mais doce que o outro.
0000- Maldita insônia! - pensou, levantando-se e dirigindo-se à varanda.
0000Acendeu um cigarro. Ridículo pseudo-refúgio da timidez e do nervosismo. Mas e daí?
0000Do seu esconderijo no milésimo andar podia espiar, sem ser notada, toda a vida noturna e secreta de uma cidade insone, incapaz de parar, incapaz de descansar, incapaz de...
0000- Assim como eu - pensou, dando uma longa tragada no cigarro.
0000O céu e a terra haviam invertido os papéis, ela pensava. As estrelas haviam caído e se alojado nas lâmpadas elétricas que se estendiam pelo horizonte, enquanto a Lua brilhava sozinha no firmamento, minguante e Capricorniana.
0000As frustrações todas de sua curta vida dançavam tango com os momentos de êxtase e felicidade num compasso dolorido e envolvente, paranóico, assustadoramente delicioso.
0000Passou a pensar em tudo o que poderia ter sido e não foi, em tudo o que não poderia ter sido e foi, em tudo o que poderia ser e foi.
0000Deu outro longo trago no cigarro e apagou-o no cinzeiro de cristal falso. Olhou para o céu e desejou viver uma grande aventura, digna de livro de ficção; algo pelo qual pudesse ser lembrada, algo que lhe permitisse ter boas histórias para contar.
0000Será que ela estava no lugar certo, na hora certa, fazendo a coisa certa? Ou será que foi justamente o contrário?
0000Ninguém nunca saberá.
0000O que se sabe é que Olívia nunca mais foi a mesma.
(Continua, um dia - não necessariamente no próximo post...)
"Here we are, now! Entertain us!"
xD
0000- Maldita insônia! - pensou, levantando-se e dirigindo-se à varanda.
0000Acendeu um cigarro. Ridículo pseudo-refúgio da timidez e do nervosismo. Mas e daí?
0000Do seu esconderijo no milésimo andar podia espiar, sem ser notada, toda a vida noturna e secreta de uma cidade insone, incapaz de parar, incapaz de descansar, incapaz de...
0000- Assim como eu - pensou, dando uma longa tragada no cigarro.
0000O céu e a terra haviam invertido os papéis, ela pensava. As estrelas haviam caído e se alojado nas lâmpadas elétricas que se estendiam pelo horizonte, enquanto a Lua brilhava sozinha no firmamento, minguante e Capricorniana.
0000As frustrações todas de sua curta vida dançavam tango com os momentos de êxtase e felicidade num compasso dolorido e envolvente, paranóico, assustadoramente delicioso.
0000Passou a pensar em tudo o que poderia ter sido e não foi, em tudo o que não poderia ter sido e foi, em tudo o que poderia ser e foi.
0000Deu outro longo trago no cigarro e apagou-o no cinzeiro de cristal falso. Olhou para o céu e desejou viver uma grande aventura, digna de livro de ficção; algo pelo qual pudesse ser lembrada, algo que lhe permitisse ter boas histórias para contar.
0000Será que ela estava no lugar certo, na hora certa, fazendo a coisa certa? Ou será que foi justamente o contrário?
0000Ninguém nunca saberá.
0000O que se sabe é que Olívia nunca mais foi a mesma.
(Continua, um dia - não necessariamente no próximo post...)
"Here we are, now! Entertain us!"
xD
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