sábado, 9 de janeiro de 2010
Tirando o pó.
Ai, ai.
Já é ano-novo, mas a inspiração ainda é velha. Continua despreocupadamente caindo na farra e não ligando a mínima para mim.
Ou seja, como sempre, não sei o que escrever.
Sei que quero, que preciso escrever.
Mas não sei o quê.
Palavras, palavras; que são elas se não um amontoado de signos que só dizem de fato alguma coisa para aqueles que sabem decifrá-las?
Ou, talvez, mesmo para esses, não dizem nada.
Se bem que, na verdade, é meio óbvio que palavras não dizem nada, palavras não têm boca. Podem ser ditas, de fato, mas não dizem nada sozinhas. Ou dizem?
Bem, nunca vi uma palavra que tivesse boca.
...
"Raul Seixas comendo peixinho frito"
quarta-feira, 20 de maio de 2009
Matemática?!
Os números não vão com a minha cara.
Nem com chantagem, suborno ou reza braba.
E eu juro que não é culpa minha.
Já tentei socializar com eles, chamando-os humildemente para tomar algumas xícaras de berguelotes feitos na hora em Manskaoosin. Servi-os em porcelana chinesa e bandeja de prata, mandei meu cozinheiro Pierre Pierrô preparar as melhores receitas de biscoitos recheados que ele pudesse imaginar, coloquei discos de música clássica para tocar, até penteei meu cabelo.
Nada disso adiantou.
Eles foram arrogantes, olharam-me com expressões de descaso, beberam meus berguelotes fazendo careta, zombaram dos biscoitos recheados do meu cozinheiro, apontaram mil defeitos na disposição das minhas terras e na arquitetura do meu castelo, chutaram meu dragão de estimação dizendo que ele não existia e que nada daquilo ali existia e foram embora carrancudos e cochichando entre si.
- Ela nem ao menos penteia os cabelos! - ouvi um deles dizer.
É.
Desde então a única coisa relacionada à matemática que eu de fato tenho certeza de estar calculando corretamente é o troco do dinheiro da cerveja.
Ok.
Às vezes nem isso.
...
quarta-feira, 6 de maio de 2009
Blá blá blá
Dei até uma mudada na foto do layout pra ver se me animo de novo com isso aqui, vocês viram?
Blé.
O fato é que atualmente minhas palavras deram para se organizar em frases soltas, assim, e só; a idéia de juntá-las em uma só história lhes parece abominável.
Sacumé, né?
Eu não sei.
De qualquer forma, decidi que é melhor escrevê-las. Se é só assim que essas teimosas dão as caras, que assim seja.
(Quem sabe assim elas ficam animadinhas umas com as outras e resolvem dar uma grande festa cheia de palavras de todos os tipos em uma só organização?)
...
segunda-feira, 24 de novembro de 2008
Insonho
Sono?
Insone.
Sony!
Sono.
Sonhos?
Insônia...
Sônia...
Sonha.
Sono!
Sem som?
Sem sono?
Sem sonho.
terça-feira, 11 de novembro de 2008
Devaneios no Metrô
Estava eu praticando meu esporte predileto nesse tipo de situação – esporte este que consiste em observar e analisar descaradamente as pessoas à minha volta – quando notei, bem à minha frente, sentado em um dos bancos reservado para idosos e deficientes, um homem barrigudo de cabelos grisalhos que lia um livrinho fino de aparência comum.
Gutembergomaníaca que sou, pus-me então a tentar decifrar qual livro aquele tal seria.
Um livro de auto-ajuda, talvez? Do tipo “Como perder 10 kg em uma semana”? Sua pequena barriga certamente acharia um desses muito útil.
Poderia também ser um daqueles livros melosos e românticos de banca-de-jornal, tipo Sabrina, Stéphanie, Paola... não, não; quem costuma ler esses livros são garotinhas fúteis e velhinhas frustradas. (!)
Ah! E se fosse um livro erótico daqueles “Kama-Sutra para iniciantes” ou “Livros para se ler com uma mão só”? Hohoho, isso seria interessante; poderia aquele distinto senhor barrigudo ser um tiozão pervertido que—
Hum. Deixa pra lá.
Finalmente o homem pousou o livro em seu protuberante abdome, de capa virada, permitindo-me então que lesse o título: “O porquê do himem – Este é um livro que deve ser lido! Todos os homens e mulheres que foram adolescentes na década de 1960 devem ler este livro para aprender como ter de volta tudo aquilo que o Diabo roubou. O amor livre foi o pior erro dessa geração, as conseqüências disso são o grande numero de divórcios—
Fiquei alguns instantes em choque. Precisei virar-me de costas e me esconder entre alguns pares de braços e mãos para não rir abertamente e correr o risco de ouvir um sermão inflamado do homem barrigudo dono do livro sobre o “porquê do himem”.
Voltei a observar o tal senhor. Cabelos grisalhos, rugas de expressão, olhos escuros e fundos. Quantos anos teria? Uns sessenta? Teria ele sido jovem durante a liberação sexual do meio do século XX? Teria ele ouvido Beatles, usado LSD e sido hippie naquela época? Estaria ele passando por dificuldades no casamento e, não sabendo mais em quê se apoiar, voltando-se para a religião, resolveu colocar a culpa em coisas que aconteceram há quase cinqüenta anos atrás, com o agravante de ter sido levado pelo diabo?
É, não sei como ainda me surpreendo com certos exemplares da minha espécie. Muito mais fácil pôr a culpa no demônio do que arcar com as conseqüências dos próprios atos.
Sim, é claro, porque foi justamente isso. O Diabo que roubou a moral e a decência dos adolescentes dos anos 60, por isso tem tanta gente se divorciando hoje em dia.
Obviamente; nada mais natural. E foi nisso que fiquei pensando enquanto voltava para casa e colocava-me a escrever sobre o ocorrido.
Deveríamos ainda casar todas virgens, os garotos sendo iniciados por prostitutas, uma vez que precisavam chegar ao casamento sabendo desse tipo de coisa.
Deveríamos continuar com um casamento, por mais infeliz e perturbado que fosse, apenas para manter as aparências, porque a igreja e a sociedade diziam ser o casamento uma união única e indissolúvel.
É, deveríamos mesmo voltar a viver como famílias do século XIX; naquela época não havia tanto divórcio, não é? Mas isso significa necessariamente que as pessoas eram mais felizes?
Nada contra o casamento ou a virgindade, desde que a pessoa tenha optado por isso por livre e espontânea vontade em busca da própria felicidade. Acontece que foi justamente só depois das revoluções culturais da década de sessenta que foi possível ao indivíduo escolher. E se Deus é amor e quer o bem à Sua criação, privilegiando-a até mesmo com o próprio Livre-Arbítrio, não entendo qual o problema em se ter a possibilidade de escolher, não entre o pecado e a pureza, mas sim entre a felicidade e a frustração.
E não me venham com discursos prontos de felicidade da matéria X felicidade do espírito, não acredito que se possa ser verdadeiramente feliz sem que haja equilíbrio entre as duas.
E... e chega, que cansei de escrever.
segunda-feira, 15 de setembro de 2008
Pen Samen Tosjo Gado SP Oraí
As cascas dos ovos das gansas albinas dos Alpes estão nevando de novo!
Cuidado com o que desejam aos três-quartos dos ventos, às vezes moinhos são só dragões ao relento.
Um duende de barba branca me disse que eu deveria dizer que não dizia nada que dissesse alguma coisa dita. Mas, de qualquer forma, não consigo me lembrar direito do que foi que ele falou.
Alguém quer morangos?
Ambrósio era um bom rapaz, até que começou a comer morangos. Sua vida nunca mais foi a mesma...
Só.
E uma vida aos brindes simples das coisas.
...
"Mandei plantar folhas de sonho no jardim do solar"
terça-feira, 19 de agosto de 2008
08.08.08 III - Os Sacanas Que Ficam Brincando Com O Destino Da Humanidade
- Meu - disse um deles - Acho que ela é um daqueles lá.
Fiquei a observar, completamente sem reação, aqueles peculiares seres de olhos grandes e rostos compridos, sem ter a mínima idéia do que diabos aquilo queria dizer.
Por que cargas d’água o Zé sempre some nessas horas?
- Sóóóó... – falou o do moicano verde, cujo nome, pelo que estava escrito em sua camiseta, devia ser Zod – E agora? – continuou, bebendo um longo gole do líquido da garrafa azul.
- Hum... ah... – comecei – Er... Oi, eu... é... sou a Carol, e... hã...
- Tá vendo! – exclamou Bob, o que usava um boné de beisebol – É aquela lá!!
- Sabemos quem você é – disse Tod, o dos óculos de aro preto.
- Ah! – falei – Vocês sabem quem eu sou... – repeti, tentando compreender alguma coisa além do fato de que eu estava mais perdida do que um historiador fefelechento na Daslu. Talvez se me oferecessem uma Heineken, ou um gole daquela garrafa azul...
- Opa, pegue uma Heineken, Carol – disse Tod, entregando-me uma lata – Talvez ela ajude a pôr os pensamentos em ordem.
Ai, caramba! Eles lêem os meus pensamentos?! O Zé bem que me avisou dos chapéus de alumínio; quem mandou ser tão esquecida, Carolina!?!
- Ih, relaxa, moça; só lemos os pensamentos que você nos permite ler – disse Tod acendendo um cigarro preto – E o chapéu de alumínio do seu amigo Zé de nada iria adiantar, de qualquer forma.
Abri a latinha e tomei um longo gole.
Utilizando um método antigo e prático de Oclumancia, método este passado de geração para geração na Antiga Civilização de Bähbd e que o Zé, sabe Zeus como, aprendeu e me ensinou há algum tempo para que meus pensamentos não fossem ouvidos por cabeças alheias, pus-me a conjecturar:
Quem seriam esses caras?
Quem seriam os “aqueles lá” dos quais eu fazia parte?
Que maldito lugar era aquele?
Aonde o Zé teria se enfiado?
O que haveria naquela garrafa azul?
Que horas seriam agora?
Por que as joaninhas vermelhas com bolinhas pretas estão desaparecendo?
Quem seriam os sacanas que ficam brincando com o destino da humanidade?
*Clique!*
- Os Sacanas que ficam brincando com o destino da Humanidade! – exclamei de repente, virando o resto da cerveja goela a baixo e encarando-os.
- Quem? – disse Zod.
- Vocês! – eu disse, pegando outra Heineken e bebendo quase tudo em um gole só – Vocês são os caras que daqui de cima controlam a humanidade toda lá em baixo e ficam se divertindo às nossas custas!!
- Humanidade! – disse Bob, empolgado – Eu sabia que esse nome ia pegar!
- Hum, pelo jeito ela sabe mais do que a gente imaginava – disse Tod enquanto dava uma longa tragada no cigarro – Sente-se, Carol – continuou, encarando-me – E pegue mais uma Heineken. Acho que temos muito que conversar.
(Continua, de novo... juro que a próxima é o final xD)
terça-feira, 12 de agosto de 2008
08.08.08 II - Através do Portal
Saudações, caros e insanos freqüentadores do Idéias Mirabolantes!
Como havia escrito no post anterior, Profeta Zé Apocalipse avisou-me da abertura do Portal de Órion.
Estava eu, confortavelmente sentada em minha poltrona azul-marinho, preparadíssima para a abertura do Portal de Órion, que, segundo o Zé, ocorreria exatamente às 08 horas e 08 minutos daquele dia quando, tendo eu caído em um ligeiro cochilo, eis que surge a figura já conhecida de meu guru despenteado adentrando espalhafatosamente pela porta da varanda.
- Carolina! - dizia ele - Acorde, Carolina! São oito horas e cinco minutos!
- Hã? Ah! Oi, Zé! E aí?
- Pois então, Carolina! Preparou-se adequadamente para a abertura do Portal?
- Você acha que ainda precisa de mais alguma coisa? - perguntei, mostrando-lhe a toalha, o saco de pipocas, a lanterna e as pilhas.
- Não, acho que não. De qualquer forma, não temos mais tempo! Venha, acho que o melhor lugar para se estar durante a abertura é ao pé de uma samambaia.
- Ao pé de uma samambaia? Mas...
- Em baixo de uma também serve. Venha.
Pegando-me pelo braço, levou-me até o hall de entrada do prédio, aonde havia uma pequena samambaia pendurada na parede.
- Oito horas, sete minutos e cinqüenta segundos. Dentro de alguns instantes...
Foi então que aconteceu.
Primeiro tudo a minha volta parou, depois as cores ficaram ridiculamente mais intensas. Uma névoa púrpura começou a sair do vasinho de samambaia e Shine On Your Crazy Diamond começou a tocar, sabe-se lá de onde.
- Zé... - eu comecei a dizer.
- Shh! Tá funcionando! Vê? Depois dessa névoa púrpura encontram-se...
E então, quando eu menos esperava, aquela sensação básica de estar sendo sugada por um aspirador de pó gigante acometeu meu corpo, e tudo ficou escuro.
***
Quando finalmente resolvi que a situação parecia ter-se normalizado - na medida do possível - abri meus olhos.
O Zé havia sumido, e eu me encontrava em uma sala circular, enorme, com incontáveis janelas, poltronas e almofadas coloridas. Haviam telescópios posicionados em todas as janelas. Latinhas de Pringles estavam espalhadas pelo chão, ao lado de várias revistas-em-quadrinhos; um vídeo-game de realidade virtual estava conectado a um grande televisor de plasma, várias garrafas vazias de Heineken estavam jogadas por aí - e muitas outras cheias estavam empilhadas em um canto - e três seres indefiníveis observavam-me com sincero interesse.
- Hum. Oi? - tentei.
Os três eram figuras bem interessantes. Eram bem altos e bem magros, com a cabeça oval meio puxada para trás e olhos realmente grandes.
Um deles tinha os cabelos compridos e claros, e deixava-os soltos. Usava óculos de aro preto e grosso envolvendo os olhos azulados e uma camiseta listrada aonde se lia “Tod”.
O outro, que segurava uma garrafa azulada com o líquido pela metade, tinha um moicano verde e olhos púrpuras. Vestia uma blusa vermelha onde estava escrito “Zod” em letras de grafitti.
O último, que estava mais à frente dos outros, tinhas olhos castanho-avermelhados, usava um boné de beisebol e uma camiseta branca com o nome “Bob”, em vermelho, e uma seta apontando para cima.
- Meu - disse um deles - Acho que ela é um daqueles lá.
(Continua...)
"A verdade do Universo é prestação que vai vencer"
quarta-feira, 30 de julho de 2008
Ah, Futuro!
Por que me olhas assim, meio de lado, com esse sorriso enigmático?
Tens realmente que abrir a cortina por meio segundo e depois fugir, em teu cavalo alado, rindo histericamente aquele riso gelado?
Não, não te quero conhecer, Futuro.
Não, não me venhas com essas brincadeiras fugidias, cortejando-me como a uma prostituta do século XIX, bebendo vinho barato em uma taberna cheia de ratos engravatados.
Não, eu já disse que não quero saber.
Eu não quero.
Deixa-me terminar em paz meu último cigarro e beber meu último gole de vinho.
E não te demores, quando a hora finalmente chegar.
Porque o que tiver que ser, inevitavelmente, será.
...
"Já tá tudo armado, o jogo dos caçadores canibais"
domingo, 20 de julho de 2008
Borboleta Cor-de-rosa
Levantou-se vagarosamente, apertando as têmporas com suas mãos gordas e, piscando seus lacrimejantes olhos castanhos, cambaleou até a cozinha cirurgicamente limpa, onde, então, tomou duas aspirinas muito brancas e muito redondas.
Estivera sonhando com o quê, mesmo?
Parecia algo relacionado a borboletas, mas ele não estava muito certo. A única coisa da qual se lembrava era um par de asas cor-de-rosa, mas isso não fazia muito sentido. Fazia?
Dirigiu-se para a sala-de-estar e deixou-se afundar pesadamente nas almofadas de uma poltrona de veludo vermelho, muito fofa e muito alta.
Parecia, por algum motivo inexplicável, ser de vital importância que se lembrasse do quê diabos estivera sonhando.
Fechou os olhos e tentou se lembrar.
Um par de asas de borboleta cor-de-rosa. Sim. Era cor-de-rosa, disso tinha certeza. E também que era um par de asas. E não haveria por acaso um jardim? Não, achava que o que havia era um castelo. Sim, um castelo de cristal, não era? Ou era uma bola de cristal? Havia mesmo alguma coisa de cristal? Agora ele não tinha sequer tanta certeza de que as asas eram mesmo cor-de-rosas... será que eram, mesmo, asas?
Levantou-se irritado e resolveu procurar pelo controle remoto da televisão.
- Que diabos, Nogueira! - reclamou consigo mesmo - Você é um homem de negócios tão bem-sucedido, vive se gabando de que nunca nenhum mínimo detalhe, de qualquer coisa que seja, lhe passou despercebido; e agora não consegue sequer se lembrar do que estava sonhando!?
Deu um pontapé dolorido em sua mesinha de centro, fazendo com que alguma coisa bem pequenina saísse voando dalí.
- Uma... uma borboleta?
A pequena borboleta cor-de-rosa voou alegre e indiferente por todo o recinto, pousando delicadamente, após alguns instantes, em cima de um cinzeiro de cristal.
Aquela borboleta, por conta de alguma coisa daquelas que nunca se sabe nem nunca se vai saber o que exatamente é, ocasionou no senhor Nogueira uma avalanche de pensamentos e lembranças que lhe atingiu como um soco no estômago, fazendo-o cair, completamente entorpecido, com um baque surdo no chão.
Ele, aquele que nunca precisou de ninguém pra alcançar o sucesso que possuía hoje, aquele que se vangloriava por haver conquistado tudo às custas de um trabalho duro e esforçado, aquele que se achava independente e auto-suficiente; agora estava caído no chão, completamente sozinho, ao lado de móveis antiqüíssimos e caríssimos, de eletroeletrônicos de última geração e de tapetes e cortinas de luxo, chorando feito um bebê.
- O que será... por quê... eu... só sei... liberdade... - balbuciava.
Ergueu a cabeça do chão e olhou, por sobre a mesa, a pequena borboleta cor-de-rosa, imóvel, ainda pousada em cima do cinzeiro de cristal. Ficou assim pelo que pareceram horas, completamente parado, apenas observando.
Finalmente levantou-se com cuidado e dirigiu-se até ela.
Observou-a durante mais alguns instantes; ela continuava imóvel.
Prendendo a respiração, com uma expressão indefinível no olhar, decidiu-se. Levantou uma de suas grandes e gordas mãos e baixou-a, num golpe rápido e pesado, esmagando a borboleta cor-de-rosa antes mesmo que ela tivesse tempo de perceber o que estava se passando.
Lançando uma última olhada para a poça vermelha e rosa que sobrara em seu cinzeiro de cristal, virou as costas e dirigiu-se para o seu quarto.
Agora não importava mais o que iria ou não sonhar.
Sua dor-de-cabeça havia passado.
...
"Trancado dentro de mim mesmo eu sou um canceriano sem lar"
terça-feira, 17 de junho de 2008
Thing Think Thin
Não saberia dizer exatamente o que era, só que era alguma coisa, e que era muito chamativa.
Olhou em volta.
Elefantes dançavam balé em um lago congelado, um grupo de cigarras reivindicava seus direitos trabalhistas em frente a um bolo de desaniversário, duas libélulas amarelas perguntavam-se por quê em inglês chamavam-se Dragonfly.
Que diabos seria aquilo que lhe chamara a atenção?
Balançou a cabeça e sentou-se num nevermind acolchoado.
Uma daquelas lagartas listradas que esperam um dia virar borboletas e te queimam se você for burro - ou teimoso - o suficiente para tocá-las rastejou em sua direção.
Um estalo de compreensão ocasionou um terremoto tímido, e ela percebeu.
Fora exatamente aquilo que lhe chamara a atenção.
(Só lhe resta agora descobrir se aquela é mesmo uma lagarta listrada ou se é só mais uma vez a sua visão regida pela Lua fazendo tudo parecer mais psicodélico)
"I know I was born and I know that I'll die, the in between is mine"
segunda-feira, 26 de maio de 2008
Na cabana da Bruxa Caolha de Manskaoosin
Alguma coisa que deveria ter sido dita e não foi se encolhe tímida em um canto escuro da sala.
Situações que deveriam ter acontecido e não aconteceram fumam cachimbo, cabisbaixas, sentadas no sofá.
Outras tantas que realmente aconteceram espiam de olhos arregalados através da janela dos fundos.
Várias coisas que não deveriam ter sido feitas, mas foram, tomam sua segunda garrafa de uísque barato enquanto jogam truco na mesa da cozinha.
Idéias desligadas permanecem penduradas na parede, sem bateria.
Sentidos sem-sentido batem-se uns aos outros e chocam-se nas paredes, escorridos, intensos, fugazes, perdidos.
Uma impetuosidade inconseqüente brinca despreocupadamente com o fogo da lareira.
Uma força de vontade fraqueja na tentativa de abrir a porta que dá para a rua.
Uma garota de cabelos roxos observa a cena, de fora, e, após alguns minutos, decide ser mais sadio tomar uma xícara de café e deixar que isso tudo se resolva da forma como quiser se resolver.
"Faz parte do meu show"
quinta-feira, 24 de abril de 2008
O fusca cor-de-rosa
Nada de mais, apenas um fusca. Um fusca dor-de-rosa.
Foi encontrado no bairro de Santa Teresa, no Rio de Janeiro.
No mais, era um só fusca.
Era um fusca cor-de-rosa.
E o que tinha de tão especial este fusca cor-de-rosa?
Bem...
Ele era cor-de-rosa.
sábado, 15 de março de 2008
Sinos
Quase nove horas da noite.
Vontade de não-sei-o-quê.
Abriu a janela e sentiu os últimos raios de Sol tocarem-lhe a fronte.
O céu estava cor-de-rosa, dourado, vermelho, violeta, azul, anil.
Um caleidoscópio de imagens invadiu seus olhos, dissolvendo-se num maremoto de formas coloridas.
Ouvia sinos.
Já era noite.
A Lua, crescente e canceriana, observava o mundo com a nostalgia dos Loucos.
O latido longínqüo dos cachorros e o cricilar tímido de alguns grilos eram os únicos sons que se ouviam naquela pequena cidade do interior.
E os sinos.
Os irritantes e insistentes sinos.
A madrugada ia solta.
Ela corria sem rumo pela ruas desertas e esburacadas da cidade, sob o olhar alaranjadamente desaprovador das lâmpadas elétricas.
O som dos sinos ficava cada vez maior, as badaladas ecoavam assustadoramente altas em seus ouvidos.
E ela corria.
Começara a chover.
A imagem da grande igreja gótica iluminou seus olhos por alguns instantes, e ela parou.
A água escorria dos seus cabelos, seus sapatos estavam encharcados, ela tremia de frio.
Subiu a escadaria da igreja e abriu com estrondo a grande porta de entrada, quebrando a corrente que a mantinha fechada.
E os sinos, os desesperadores e insistentes sinos, continuavam a tocar.
No dia seguinte a policia local encontrou a garota no altar da pequena capela da cidade.
Uma poça de sangue a circundava, havia talhos em seus pulsos.
Sua expressão era serena.
E os sinos, os alegres e simpáticos sinos, finalmente pararam de tocar.
***
"I have become a confortably numb"
quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008
"Isso"
Não queria falar sobre isso.
Mas ia falar sobre o quê, se não sobre isso?
Hum, pensando bem, há muitas coisas sobre as quais eu poderia falar.
Sim, como, por exemplo, o porquê das joaninhas vermelhas com bolinhas pretas estarem sumindo ou a maneira pela qual os alienígenas pretendem invadir a Terra.
Mas o fato é que não sei ao certo o porquê das joaninhas vermelhas com bolinhas pretas estarem sumindo nem a maneira pela qual os alienígenas pretendem invadir a Terra.
Dizem as más línguas que as joaninhas vermelhas com bolinhas pretas estão sumindo porque estão em extinção e os alienígenas vão nos matar quando invadirem a Terra.
Dizem as boas línguas que as joaninhas vermelhas com bolinhas pretas estão sumindo porque estão em extinção e os alienígenas vão nos ajudar quando invadirem a Terra.
Diz a minha língua que ninguém sabe a verdade, na verdade, de verdade.
Então, de que adianta falar sobre alguma coisa sobre a qual ninguém sabe?
Bem... sendo assim, imagino que devo abster-me de escrever sobre qualquer assunto.
Inclusive sobre isso.
...
"An I forget jus why I taste/ Oh, yeah, I guess it makes me smile"...