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quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Sobre as coisas como elas não são

Ao amanhecer de uma noite ligeiramente ébria estava esta que aqui vos escreve sentada num dos bancos azuis do fundo de um Terminal Capelinha, olhando pela janela sem realmente ver o que se passava por trás do vidro e ouvindo o álbum Division Bell, do Pink Floyd.

Não pensava em nada em específico, só ouvia a música e lutava contra o insistente sono.

Em uma das paradas do ônibus, eis que sobe no veículo uma senhora baixa, meio gorducha, de cabelos gritantemente vermelhos e roupas que combinavam muito bem: calças amarelo marca-texto e uma camisa azul-marinho com bolotas coloridas.

Não tive como não reparar. Talvez se ela tivesse pendurado uma melancia no pescoço o visual ficasse ligeiramente mais apresentável, mas, em todo o caso, o fato foi que aquela explosão de cores fez-me pensar sobre algumas coisas.

Não, não foi que talvez a pobre mulher não tivesse dinheiro o suficiente para possuir um espelho de corpo inteiro em casa ou em como o mundo poderia ser muito mais esteticamente agradável se fosse possível adquirir um concentrado de Senso de Ridículo em qualquer farmácia.

Lá, sentada num dos últimos bancos azuis do ônibus, observando com ligeiro ar de riso aquela explosão de cores que se materializava na gorducha senhora ridiculamente vestida, pensamentos obscuros sobre a relatividade das coisas começaram a dançar uma ciranda na varanda do meu cérebro.

A vermelhidão do cabelo da senhora, por exemplo.

Será que aquela cor intensa e vívida que eu enxergava com meus míopes e astigmáticos olhos castanhos era a mesma cor que o garoto de boné postado em frente à porta via quando olhava para aquela mulher?

Será que o vermelho que eu vejo é o mesmo vermelho que ele vê, que você vê, que qualquer um vê?

Se uma pessoa, desde que se entende por gente, acostuma-se a dizer que a cor do céu é azul, a cor do céu, para aquela pessoa, será azul, mesmo que o que ela veja seja o que eu chamaria de verde. Estando ela acostumada a chamar o que eu chamaria de verde de azul, o verde, para aquela pessoa, seria azul.

Ou não.

As relatividades e as dependências dos pontos de vista para qualquer situação são um tanto quanto frustrantes, não são?

Digo, até hoje não tenho a certeza absoluta de que aqueles que me cercam existem realmente.

Talvez vocês todos sejam apenas um fruto da minha imaginação.

Talvez eu mesma seja um fruto da minha imaginação.

Como posso ter a certeza de que alguma coisa é realmente alguma coisa, seja lá que alguma coisa essa alguma coisa gostaria de ser, se é da minha percepção que irei me valer ao analisar essa alguma coisa?

O que eu quero dizer – se é que quero mesmo dizer alguma coisa e não simplesmente escrever palavras a esmo numa página em branco do Blogger – é que esse é o tipo de coisa sobre a qual o melhor a se fazer é varrê-la para debaixo do tapete e ir assistir à uma partida de bocha alienígena bebendo vodkas Alkällesiahnas.

Ou não, também.

42.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Tutorial de Como Matar Uma Mariposa Gigante

Estávamos nós, eu e Thiago, calmamente sentados no sofá da casa da minha avó em Águas de São Pedro, altas horas da madrugada, assistindo ao Novo Tele Curso – que, aliás, é realmente muito novo, diga-se de passagem; as placas dos carros que passavam na gravação ainda eram amarelas, os ônibus eram brancos com uma linha vermelha no meio e as pessoas usavam aqueles penteados cheios lindos do começo dos anos 90 e aquelas calças de cintura alta coloridas – quando, de repente, eis que essa que aqui vos escreve nota alguma coisa muito preta e muito nojenta delicadamente (?!) pousada no vidro da janela.

— Thi... Aquilo ali é uma barata ou uma borboleta? — perguntei, temendo a resposta.

Como todos bem sabem, eu tenho um certo, hum, como poderia dizer?, receio de borboletas.
Na verdade, não é bem um receio.
É medo, mesmo.
Pavor.
E não tem explicação nenhuma pra isso, exceto que minha avó também tem.
Já me disseram que, de acordo com a psicanálise, pode ser que esse meu pé atrás em relação às borboletas (escrever aqui “meu pavor de” seria mais correto, mas faria com que me sentisse idiota, então, deixa pra lá) e qualquer coisa que voe de maneira geral seja porque eu tenho inveja da liberdade que esses animais têm por poderem voar.
Talvez.
Mas se voar for mesmo só uma questão de errar o chão, então...
Ah, deixa pra lá.
Voltando ao que aconteceu.

— Thi... Aquilo ali é uma barata ou uma borboleta?

— Acho que é uma borboleta... ai, não, acho que é uma mariposa!

Foi o tempo de processar a palavra “mariposa” e ligar o nome ao bicho que os dois corajosos urbaninhos puseram-se de pé num pulo e foram refugiar-se no extremo oposto da sala, quase que atrás da mesa.

— E agora? Você vai matar? — perguntei, em meu desespero crescente.

— Matar isso aí? Ai. Tem SBP? Ai.

Bom ter um namorado que tem tanto medo de mariposa quanto eu.
Lá foi a garota do cabelo roxo desbotado em busca da salvação e do alívio que se materializavam em um vidro de SBP.

— Olha, tá aqui. E o pano. — eu disse, entregando-lhe as armas, assumindo uma expressão de “eu confio que você vai voltar vivo” digna de esposa de soldado em véspera de batalha e tratando de sair rapidinho dali.

Pobre Thiago. Foi-se chegando de mansinho ali perto da janela, entrincheirando-se atrás do sofá, as armas em punho, uma expressão de determinação no rosto. Engatilhou o vidro de SBP e disparou uma, duas, três vezes, dando um passo para trás a cada vez que a mariposa esboçava qualquer sinal de tentar se mexer.

— Ô Thi... acho que você tem que espirrar mais em cima dela, não? — balbuciei do meu esconderijo na cozinha.

— Tô tentando!! — disse ele, e espirrou uma quarta vez. Oh, céus. Para quê. E não foi que a mariposa maldita resolveu levantar vôo?

Não deu nem uns três segundos e eu já estava escondida atrás da porta da lavanderia, com um cachorro poddle preto com cara de sono a me observar desaprovadoramente e um sentimento nada propício de que não deveria ter deixado meu pobre namorado lutando sozinho com aquele monstro.
Cadê sua coragem, Carolina!
Juntei minhas forças, ou o que sobrara delas, e voltei para o campo de batalha.

— Thi?

— É melhor você ficar aí. Ela tava voando; agora tá pendurada no sofá.

— Ai. Vou tentar abrir a porta pra ela sair!

Brilhante idéia, Carolina. Brilhante. Como você pretendia fazer aquilo sem passar por aquele monstro mutante?
Mas lá fui eu, exemplo da coragem feminina, pulando a qualquer tremida de asas da mariposa, abrir a porta. E consegui sair ilesa da missão, vivas para mim! Entretanto, quem não quis entrar na brincadeira foi a mariposa. Lá ela continuou, pousada no sofá, parece que zombando das nossas tentativas frustradas de fazê-la ir embora.

— Taca mais SBP! — eu disse.

Acabamos com o vidro de SBP; nada. Busquei outro. No que o Thiago abriu o frasco aquele demônio alado, talvez prevendo outra tentativa homicida da nossa parte, abriu suas enormes asas negras e amareladas e partiu para cima do coitado.

— AH! AHHH! ELA TÁ ME ATACANDO!!!

— AAAAHHHHH!!!!

Corremos para a cozinha. De lá, observávamos a astúcia da mariposa, voando calmamente pela sala. Depois de algum tempo, ela se escondeu em baixo da mesa.

— É agora! — eu disse — Mais SBP!

Espirramos mais SBP naquela mutação genética, que começou a se debater freneticamente. Esboçou mais algumas tentativas de vôo, frustradas pelo veneno, e pôs-se a cambalear pelo chão da sala.

— Ah, agora fica mais fácil, né? — eu disse.

— É, né... — respondeu o Thiago, e ficou me olhando — Mas ela ainda tá fugindo.

Depois de algumas tentativas frustradas de tiro ao alvo com meus chinelos, eis que Thiago teve a brilhante idéia de jogar o pano em cima da mariposa.

— Você joga — falei.

E ele jogou. Acertou em cheio as asonas pretas e nojentas da mariposa.
E lá ficou, aquele monstro diabólico e perverso, debatendo-se debaixo do pano de chão sujo.

— Você vai pegar a bichinha? — perguntei, suplicante, mas já sabendo a resposta.

— Há. De jeito nenhum. Deixa ela aí!

Mas eu não podia deixá-la ali.
Ela se debatia, o pano mexia, começava a me dar uma agonia danada de ver a agonia da pobrezinha.
Sim, ela era um monstro vindo direto do inferno, mas, ainda assim, a hora da morte de qualquer ser vivo deve ser respeitada.
E foi por isso, por piedade, que eu não tive dúvidas e pisei em cima do pano. Uma, duas, três vezes. Dancei um sapateado romeno em cima da bicha, até ter certeza de que ela não iria se mexer mais.

— Pronto. Agora você pega? — perguntei.

— Eu, heim!! — respondeu Thiago se afastando.

Então, como não havia mais jeito, fiz eu o trabalho sujo de me livrar do corpo. Deitei-o no jardim, com pano e tudo, da maneira mais rápida e limpa que pude encontrar.

E foi assim que se deu a batalha épica de dois urbaninhos guerreiros e extremamente corajosos com um terrível monstro alado saído direto dos últimos círculos do inferno.
Por favor, crianças, não tentem isso em casa. Um negócio desses pode causar danos psicológicos irreversíveis...

E fim.

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

08.08.08

O Profeta Zé Apocalipse, meu intergaláctico guru espiritual, disse-me agora a pouco:

Hoje, caríssima Mestra Carolina, abrir-se-á o Portal de Órion, exatamente às 08 horas e 08 minutos da manhã.

Deste magnânimo portal emanarão as justiceiras energias do o número 8, potencializando todo e qualquer pensamento, seja ele positivo ou negativo.

Portanto, Carolina, aconselho-a a inspecionar seus pensamentos muito bem inspecionados.

Sim, eu sei que isso não é tarefa fácil, uma vez que ainda não se sabe se é você quem pensa nos seus pensamentos ou se são eles que pensam em você.

De qualquer maneira, fique alerta para aonde o vento sopra.

É necessário lembrar, também, que há uma ligeira possibilidade deste Portal Energético Universal se transmutar em um Portal Físico-Energético Multidimensional, permitindo o contato com alguns pontos inespecíficos de regiões localizadas em dimensões diferentes da dimensão terrestre. A probabilidade é ínfima, mas a possibilidade é considerável, uma vez que possibilidades são sempre consideráveis.

Em todo o caso, deixe sua toalha em um local de fácil acesso e programe-se para usar o Grande Chapéu de Alumínio Prateado nesse horário.

Cuidado com o fluxo de algumas ondas eletro-magnéticas com nomes de letras gregas, elas podem estar vestidas de dançarinas de cabaré e lhe intimarem a coçar os ouvidos com os dedos do pé.

Fique em paz, não coma cera de ouvido, jogue abóboras nos feriados e observe as estrelas sempre que puder!

Namastê!

Profeta Zé Apocalipse.

***

Huuuum.

Acho melhor eu me preparar.


*Karol indo buscar sua toalha, rolos de papel alumínio, uma lanterna, algumas pilhas e um pacote de pipoca-de-microondas*

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

"Isso"

Não.
Não queria falar sobre isso.
Mas ia falar sobre o quê, se não sobre isso?
Hum, pensando bem, há muitas coisas sobre as quais eu poderia falar.
Sim, como, por exemplo, o porquê das joaninhas vermelhas com bolinhas pretas estarem sumindo ou a maneira pela qual os alienígenas pretendem invadir a Terra.
Mas o fato é que não sei ao certo o porquê das joaninhas vermelhas com bolinhas pretas estarem sumindo nem a maneira pela qual os alienígenas pretendem invadir a Terra.
Dizem as más línguas que as joaninhas vermelhas com bolinhas pretas estão sumindo porque estão em extinção e os alienígenas vão nos matar quando invadirem a Terra.
Dizem as boas línguas que as joaninhas vermelhas com bolinhas pretas estão sumindo porque estão em extinção e os alienígenas vão nos ajudar quando invadirem a Terra.
Diz a minha língua que ninguém sabe a verdade, na verdade, de verdade.
Então, de que adianta falar sobre alguma coisa sobre a qual ninguém sabe?
Bem... sendo assim, imagino que devo abster-me de escrever sobre qualquer assunto.
Inclusive sobre isso.
...

"An I forget jus why I taste/ Oh, yeah, I guess it makes me smile"...