domingo, 5 de outubro de 2008
A Criação
Não havia sensação alguma, apenas Água.
Aos poucos, formou-se no horizonte um pequeno ponto brilhante.
Não que aquele fosse, realmente, o Horizonte, ou que o pequeno ponto brilhante fosse, exatamente, um pequeno ponto brilhante.
Mas era alguma coisa; alguma coisa que abalava a estaticidade da Água.
E aumentava.
Cada vez maior, cada vez mais brilhante.
Cada vez mais perto.
Um som surdo, absurdamente alto e quase que completamente imperceptível, começou a tomar forma.
Era o Som do Silêncio.
O Som do Silêncio Vivo.
A Água agitava-se.
Tons de azul e violeta tomavam lugar na transparência das bolhas que se formavam.
Um frio metálico foi sentido.
A Água, então, passou a sentir.
O que antes era um pequeno ponto brilhante agora já se tornara uma imensa e ofuscante bola de luz branca.
E foi então que aconteceu.
A imensa e ofuscante bola de luz branca chocou-se estrondosamente com a Água.
E foi então que, da explosão de cores e sons jamais imaginados e nunca mais vistos que tal impacto causou, surgiu o Tudo-O-Que-Conhecemos-E-Ou-Não-Temos-A-Mínima-Idéia-Do-Que-Seja-Hoje-Em-Dia.
...
"Amanheceu um lindo dia, cheirando alegria"...
sexta-feira, 26 de setembro de 2008
...
Ia dormir faz tempo, mas estou sem sono.
Ia fazer um vídeo de presente de aniversário para meu avô, mas o Movie Maker travou.
Ia assistir a outro episódio do House, mas já está muito tarde (ou talvez cedo?) para começar.
Ia escrever alguma coisa mais útil, mas a idéia escorreu pelo ralo junto com os últimos M&Ms amarelos.
...
Alguém viu a Inspiração por aí?
A última vez que a vi, estava jogando buraco com a Rotina, enchendo a cara de conhaque. Deve ter ficado bêbada e esquecido o caminho de casa...
Por favor, se a virem, entrem em contato.
Au revoir!
segunda-feira, 15 de setembro de 2008
Pen Samen Tosjo Gado SP Oraí
As cascas dos ovos das gansas albinas dos Alpes estão nevando de novo!
Cuidado com o que desejam aos três-quartos dos ventos, às vezes moinhos são só dragões ao relento.
Um duende de barba branca me disse que eu deveria dizer que não dizia nada que dissesse alguma coisa dita. Mas, de qualquer forma, não consigo me lembrar direito do que foi que ele falou.
Alguém quer morangos?
Ambrósio era um bom rapaz, até que começou a comer morangos. Sua vida nunca mais foi a mesma...
Só.
E uma vida aos brindes simples das coisas.
...
"Mandei plantar folhas de sonho no jardim do solar"
quarta-feira, 10 de setembro de 2008
08.08.08 IV - Finalmente Final
Sentei-me num pufe colorido, retirando uma revista da Turma da Mônica que ali estava e apossando-me de mais uma garrafa da Heineken.
Tentei colocar meus pensamentos em ordem, o que era tarefa difícil, uma vez que três seres bastante peculiares ainda me observavam com seus grandes olhos coloridos.
Bebi alguns goles da cerveja.
Certo. Aqueles eram os famosos (ou não tão famosos assim) Sacanas Que Controlam O Destino Da Humanidade. Chamavam-se Tod, Bob e Zod. Bebiam Heinkens, jogavan Play Station, liam histórias em quadrinhos e não deviam ser muito chegados numa faxina.
Sim, aquilo explicava muita coisa sobre o destino da humanidade.
- Então, Carol - começou Tod - Nós somos Aqueles Que Foram Criados Antes Mesmo Da Criação, entende?
- Há quem diga que nós mesmos nos criamos - disse Bob - Mas eu não tenho tanta certeza disso, visto que não nos lembramos de como fizemos isso.
- Sim, o que é uma pena - falou Zod - Você pode imaginar o que é passar uma eternidade só com esses dois marmanjos aí?
- Hum... deve ser... - tentei dizer.
- Um saco - completou o ser com moicano - Por isso as Heinekens, as revistas, o vídeo-game...
Aquilo começava a me soar extremamente interessante. Explicava muitas coisas, aliás.
Bebi mais cerveja.
- Pois é - disse Tod - Foi então que, durante um dia frio e cinzento, daqueles em que nada se tem e nada se pensa pra fazer...
- E que resolvemos chamar de Domingo - complementou Zod.
- ...decidimos que continuar a viver daquele jeito não ia dar. Precisávamos urgentemente de alguma coisa que nos entretesse, sabe, que nos tirasse daquela monotonia...
- ...e então eu resolvi ir até a janela tomar um pouco de ar - disse Bob - porque o Zod acendia um cigarro atrás do outro - continuou, virando para o amigo e fazendo fazendo uma careta - e meu pulmão não é cinzeiro, saca...
- ...aí - disse Tod acendendo outro cigarro e soltando a fumaça na cara de Bob - essa bicha aí virou, empolgadíssimo, para mim e para o Zod e disse...
- Humanidade!
- Eu perguntei, obviamente - disse Zod - que porra era aquela que ele estava gritando...
- E eu respondi que não sabia, também, mas que tinha jeito de chamar "humanidade".
Eu precisava urgentemente de mais uma garrafa de Heineken.
- O que o Bob, aí, chamou de "Humanidade" - disse Tod - Eram serezinhos muito peculiares, bem parecidos com você, aliás...
- Só que beeeem mais peludos - interviu Zod.
- ... e que vieram, como soubemos depois de analisar um deles atenciosamente, da mistura das cinzas dos meus cigarros e da terra do nosso vaso de petúnias com um pouco da nossa saliva e da cerveja que o Bob desperdiçou porque estava bêbado e jogou a garrafa pela janela.
- Por quê cargas d'água essa mistura bizarra resultou em serezinhos tão divertidos eu não tenho a mínima idéia - falou Bob - Mas vocês tinham uma cara de "Humanidade" a primeira vez que os vi... eu sabia que esse nome ia pegar.
Eu estava embasbacada com aquilo que havia acabado de ouvir. Tentei pronunciar alguma coisa, mas minha voz entrara em greve por melhores condições de trabalho e encontrava-se no momento acampada em minha laringe segurando um cartazinho em branco e comendo pipocas.
Abri mais uma garrafa de Heineken.
- Aí acho que você já sacou o que aconteceu depois - começou Zod - O Bob teve a brilhante idéia da gente influenciar a vida da "humanidade" e ver o que acontecia com eles. Isso nos propiciou séculos e mais séculos de diversão...
- É bem verdade que algumas vezes eles fugiam do nosso controle - disse Tod - E se matavam uns aos outros sem que nós mandássemos...
- Mas temos que admitir que isso dava um sabor a mais para a diversão - completou Zod piscando o olho.
- Agora eu só queria saber o quê diabos você está fazendo aqui - disse Bob arqueando as sobrancelhas.
Ah, como se eu soubesse!
- É, então - comecei a dizer - Eu também gostaria de saber. A última coisa da qual me lembro é estar debaixo de uma samambaia com meu Guru Espiritual, o Profeta Zé Apocalipse...
- Ah, sim, seu amigo barbudo! - exclamou Zod - Gente boa, ele. As vezes dá um pulo aqui em cima pra gente beber uma breja, ou um café.
- Devíamos ter imaginado que era coisa dele - comentou Tod - Ainda está se escondendo d'ELES?
- Sim, sim - eu disse - o Zé está sempre se escondendo d'ELES...
- E é a melhor coisa que ele faz - disse Bob.
Nesse momento uma nuvem de fumaça púrpura tomou o aposento e surgiu, de dentro dela, meu queridíssimo Guru Espiritual Zé Apocalipse e sua inseparável toalha cor-de-laranja.
- Saudações, rapazes - disse ele - Espero que não tenha causado contrangimento o fato de ter deixado minha protegida aqui com os senhores sem tê-los avisado previamente.
- Ah, relaxa, Zé - disse Bob - Ficamos com receio no começo, mas cê tá ligado que adoramos conversar com alguém, né?
- Principalmente se for um daqueles lá - completou Zod.
- Muito que bem - disse o Zé - Eu precisei resolver alguns assuntos com a abertura do Portal de Órion e era extremamente necessário que ela ficasse em segurança. Bom, acho que é hora de irmos, não acha, Carolina?
- É, acho que sim... - respondi, meio aérea.
- Bem, até a próxima Zé! Foi um prazer conhecê-la, Carol. Sempre que quiser beber uma breja com a gente esteja a vontade, viu?
- Obrigada...
- Até mais - disse Zé, pegando alguma coisa dentro de sua bolsa - e obrigado pelos peixes!
Mais uma vez aquela sensação de estar sendo sugada por um cano bem menor do que meu corpo acometeu meus sentidos e, no instante seguinte, estava eu em casa novamente, totalmente sozinha - e ligeiramente bêbada.
(FIM - finalmente xD)
terça-feira, 19 de agosto de 2008
08.08.08 III - Os Sacanas Que Ficam Brincando Com O Destino Da Humanidade
- Meu - disse um deles - Acho que ela é um daqueles lá.
Fiquei a observar, completamente sem reação, aqueles peculiares seres de olhos grandes e rostos compridos, sem ter a mínima idéia do que diabos aquilo queria dizer.
Por que cargas d’água o Zé sempre some nessas horas?
- Sóóóó... – falou o do moicano verde, cujo nome, pelo que estava escrito em sua camiseta, devia ser Zod – E agora? – continuou, bebendo um longo gole do líquido da garrafa azul.
- Hum... ah... – comecei – Er... Oi, eu... é... sou a Carol, e... hã...
- Tá vendo! – exclamou Bob, o que usava um boné de beisebol – É aquela lá!!
- Sabemos quem você é – disse Tod, o dos óculos de aro preto.
- Ah! – falei – Vocês sabem quem eu sou... – repeti, tentando compreender alguma coisa além do fato de que eu estava mais perdida do que um historiador fefelechento na Daslu. Talvez se me oferecessem uma Heineken, ou um gole daquela garrafa azul...
- Opa, pegue uma Heineken, Carol – disse Tod, entregando-me uma lata – Talvez ela ajude a pôr os pensamentos em ordem.
Ai, caramba! Eles lêem os meus pensamentos?! O Zé bem que me avisou dos chapéus de alumínio; quem mandou ser tão esquecida, Carolina!?!
- Ih, relaxa, moça; só lemos os pensamentos que você nos permite ler – disse Tod acendendo um cigarro preto – E o chapéu de alumínio do seu amigo Zé de nada iria adiantar, de qualquer forma.
Abri a latinha e tomei um longo gole.
Utilizando um método antigo e prático de Oclumancia, método este passado de geração para geração na Antiga Civilização de Bähbd e que o Zé, sabe Zeus como, aprendeu e me ensinou há algum tempo para que meus pensamentos não fossem ouvidos por cabeças alheias, pus-me a conjecturar:
Quem seriam esses caras?
Quem seriam os “aqueles lá” dos quais eu fazia parte?
Que maldito lugar era aquele?
Aonde o Zé teria se enfiado?
O que haveria naquela garrafa azul?
Que horas seriam agora?
Por que as joaninhas vermelhas com bolinhas pretas estão desaparecendo?
Quem seriam os sacanas que ficam brincando com o destino da humanidade?
*Clique!*
- Os Sacanas que ficam brincando com o destino da Humanidade! – exclamei de repente, virando o resto da cerveja goela a baixo e encarando-os.
- Quem? – disse Zod.
- Vocês! – eu disse, pegando outra Heineken e bebendo quase tudo em um gole só – Vocês são os caras que daqui de cima controlam a humanidade toda lá em baixo e ficam se divertindo às nossas custas!!
- Humanidade! – disse Bob, empolgado – Eu sabia que esse nome ia pegar!
- Hum, pelo jeito ela sabe mais do que a gente imaginava – disse Tod enquanto dava uma longa tragada no cigarro – Sente-se, Carol – continuou, encarando-me – E pegue mais uma Heineken. Acho que temos muito que conversar.
(Continua, de novo... juro que a próxima é o final xD)
terça-feira, 12 de agosto de 2008
08.08.08 II - Através do Portal
Saudações, caros e insanos freqüentadores do Idéias Mirabolantes!
Como havia escrito no post anterior, Profeta Zé Apocalipse avisou-me da abertura do Portal de Órion.
Estava eu, confortavelmente sentada em minha poltrona azul-marinho, preparadíssima para a abertura do Portal de Órion, que, segundo o Zé, ocorreria exatamente às 08 horas e 08 minutos daquele dia quando, tendo eu caído em um ligeiro cochilo, eis que surge a figura já conhecida de meu guru despenteado adentrando espalhafatosamente pela porta da varanda.
- Carolina! - dizia ele - Acorde, Carolina! São oito horas e cinco minutos!
- Hã? Ah! Oi, Zé! E aí?
- Pois então, Carolina! Preparou-se adequadamente para a abertura do Portal?
- Você acha que ainda precisa de mais alguma coisa? - perguntei, mostrando-lhe a toalha, o saco de pipocas, a lanterna e as pilhas.
- Não, acho que não. De qualquer forma, não temos mais tempo! Venha, acho que o melhor lugar para se estar durante a abertura é ao pé de uma samambaia.
- Ao pé de uma samambaia? Mas...
- Em baixo de uma também serve. Venha.
Pegando-me pelo braço, levou-me até o hall de entrada do prédio, aonde havia uma pequena samambaia pendurada na parede.
- Oito horas, sete minutos e cinqüenta segundos. Dentro de alguns instantes...
Foi então que aconteceu.
Primeiro tudo a minha volta parou, depois as cores ficaram ridiculamente mais intensas. Uma névoa púrpura começou a sair do vasinho de samambaia e Shine On Your Crazy Diamond começou a tocar, sabe-se lá de onde.
- Zé... - eu comecei a dizer.
- Shh! Tá funcionando! Vê? Depois dessa névoa púrpura encontram-se...
E então, quando eu menos esperava, aquela sensação básica de estar sendo sugada por um aspirador de pó gigante acometeu meu corpo, e tudo ficou escuro.
***
Quando finalmente resolvi que a situação parecia ter-se normalizado - na medida do possível - abri meus olhos.
O Zé havia sumido, e eu me encontrava em uma sala circular, enorme, com incontáveis janelas, poltronas e almofadas coloridas. Haviam telescópios posicionados em todas as janelas. Latinhas de Pringles estavam espalhadas pelo chão, ao lado de várias revistas-em-quadrinhos; um vídeo-game de realidade virtual estava conectado a um grande televisor de plasma, várias garrafas vazias de Heineken estavam jogadas por aí - e muitas outras cheias estavam empilhadas em um canto - e três seres indefiníveis observavam-me com sincero interesse.
- Hum. Oi? - tentei.
Os três eram figuras bem interessantes. Eram bem altos e bem magros, com a cabeça oval meio puxada para trás e olhos realmente grandes.
Um deles tinha os cabelos compridos e claros, e deixava-os soltos. Usava óculos de aro preto e grosso envolvendo os olhos azulados e uma camiseta listrada aonde se lia “Tod”.
O outro, que segurava uma garrafa azulada com o líquido pela metade, tinha um moicano verde e olhos púrpuras. Vestia uma blusa vermelha onde estava escrito “Zod” em letras de grafitti.
O último, que estava mais à frente dos outros, tinhas olhos castanho-avermelhados, usava um boné de beisebol e uma camiseta branca com o nome “Bob”, em vermelho, e uma seta apontando para cima.
- Meu - disse um deles - Acho que ela é um daqueles lá.
(Continua...)
"A verdade do Universo é prestação que vai vencer"
sexta-feira, 8 de agosto de 2008
08.08.08
Hoje, caríssima Mestra Carolina, abrir-se-á o Portal de Órion, exatamente às 08 horas e 08 minutos da manhã.
Deste magnânimo portal emanarão as justiceiras energias do o número 8, potencializando todo e qualquer pensamento, seja ele positivo ou negativo.
Portanto, Carolina, aconselho-a a inspecionar seus pensamentos muito bem inspecionados.
Sim, eu sei que isso não é tarefa fácil, uma vez que ainda não se sabe se é você quem pensa nos seus pensamentos ou se são eles que pensam em você.
De qualquer maneira, fique alerta para aonde o vento sopra.
É necessário lembrar, também, que há uma ligeira possibilidade deste Portal Energético Universal se transmutar
Em todo o caso, deixe sua toalha em um local de fácil acesso e programe-se para usar o Grande Chapéu de Alumínio Prateado nesse horário.
Cuidado com o fluxo de algumas ondas eletro-magnéticas com nomes de letras gregas, elas podem estar vestidas de dançarinas de cabaré e lhe intimarem a coçar os ouvidos com os dedos do pé.
Fique em paz, não coma cera de ouvido, jogue abóboras nos feriados e observe as estrelas sempre que puder!
Namastê!
Profeta Zé Apocalipse.
***
Huuuum.
Acho melhor eu me preparar.
*Karol indo buscar sua toalha, rolos de papel alumínio, uma lanterna, algumas pilhas e um pacote de pipoca-de-microondas*
quarta-feira, 30 de julho de 2008
Ah, Futuro!
Por que me olhas assim, meio de lado, com esse sorriso enigmático?
Tens realmente que abrir a cortina por meio segundo e depois fugir, em teu cavalo alado, rindo histericamente aquele riso gelado?
Não, não te quero conhecer, Futuro.
Não, não me venhas com essas brincadeiras fugidias, cortejando-me como a uma prostituta do século XIX, bebendo vinho barato em uma taberna cheia de ratos engravatados.
Não, eu já disse que não quero saber.
Eu não quero.
Deixa-me terminar em paz meu último cigarro e beber meu último gole de vinho.
E não te demores, quando a hora finalmente chegar.
Porque o que tiver que ser, inevitavelmente, será.
...
"Já tá tudo armado, o jogo dos caçadores canibais"
domingo, 20 de julho de 2008
Borboleta Cor-de-rosa
Levantou-se vagarosamente, apertando as têmporas com suas mãos gordas e, piscando seus lacrimejantes olhos castanhos, cambaleou até a cozinha cirurgicamente limpa, onde, então, tomou duas aspirinas muito brancas e muito redondas.
Estivera sonhando com o quê, mesmo?
Parecia algo relacionado a borboletas, mas ele não estava muito certo. A única coisa da qual se lembrava era um par de asas cor-de-rosa, mas isso não fazia muito sentido. Fazia?
Dirigiu-se para a sala-de-estar e deixou-se afundar pesadamente nas almofadas de uma poltrona de veludo vermelho, muito fofa e muito alta.
Parecia, por algum motivo inexplicável, ser de vital importância que se lembrasse do quê diabos estivera sonhando.
Fechou os olhos e tentou se lembrar.
Um par de asas de borboleta cor-de-rosa. Sim. Era cor-de-rosa, disso tinha certeza. E também que era um par de asas. E não haveria por acaso um jardim? Não, achava que o que havia era um castelo. Sim, um castelo de cristal, não era? Ou era uma bola de cristal? Havia mesmo alguma coisa de cristal? Agora ele não tinha sequer tanta certeza de que as asas eram mesmo cor-de-rosas... será que eram, mesmo, asas?
Levantou-se irritado e resolveu procurar pelo controle remoto da televisão.
- Que diabos, Nogueira! - reclamou consigo mesmo - Você é um homem de negócios tão bem-sucedido, vive se gabando de que nunca nenhum mínimo detalhe, de qualquer coisa que seja, lhe passou despercebido; e agora não consegue sequer se lembrar do que estava sonhando!?
Deu um pontapé dolorido em sua mesinha de centro, fazendo com que alguma coisa bem pequenina saísse voando dalí.
- Uma... uma borboleta?
A pequena borboleta cor-de-rosa voou alegre e indiferente por todo o recinto, pousando delicadamente, após alguns instantes, em cima de um cinzeiro de cristal.
Aquela borboleta, por conta de alguma coisa daquelas que nunca se sabe nem nunca se vai saber o que exatamente é, ocasionou no senhor Nogueira uma avalanche de pensamentos e lembranças que lhe atingiu como um soco no estômago, fazendo-o cair, completamente entorpecido, com um baque surdo no chão.
Ele, aquele que nunca precisou de ninguém pra alcançar o sucesso que possuía hoje, aquele que se vangloriava por haver conquistado tudo às custas de um trabalho duro e esforçado, aquele que se achava independente e auto-suficiente; agora estava caído no chão, completamente sozinho, ao lado de móveis antiqüíssimos e caríssimos, de eletroeletrônicos de última geração e de tapetes e cortinas de luxo, chorando feito um bebê.
- O que será... por quê... eu... só sei... liberdade... - balbuciava.
Ergueu a cabeça do chão e olhou, por sobre a mesa, a pequena borboleta cor-de-rosa, imóvel, ainda pousada em cima do cinzeiro de cristal. Ficou assim pelo que pareceram horas, completamente parado, apenas observando.
Finalmente levantou-se com cuidado e dirigiu-se até ela.
Observou-a durante mais alguns instantes; ela continuava imóvel.
Prendendo a respiração, com uma expressão indefinível no olhar, decidiu-se. Levantou uma de suas grandes e gordas mãos e baixou-a, num golpe rápido e pesado, esmagando a borboleta cor-de-rosa antes mesmo que ela tivesse tempo de perceber o que estava se passando.
Lançando uma última olhada para a poça vermelha e rosa que sobrara em seu cinzeiro de cristal, virou as costas e dirigiu-se para o seu quarto.
Agora não importava mais o que iria ou não sonhar.
Sua dor-de-cabeça havia passado.
...
"Trancado dentro de mim mesmo eu sou um canceriano sem lar"
terça-feira, 8 de julho de 2008
Mero recado:
Fiquem em paz, e lembrem-se de que o Fim está próximo.
Atenciosamente,
Abelardo
(Duende Espacial Ordenhador das Vacas Sagradas da Via-Láctea, Ordem 7, N° 1248856)