quinta-feira, 26 de junho de 2008

A lagartixa

A lagartixa permanecia estática no alto da parede.
De sua posição elevada possuía uma visão privilegiada do recinto.
Observava atenta o ir e vir daqueles seres enormes, desengonçados e de difícil compreenção.
Eles estavam sempre por ali, por lá, por todos os lugares. Era impossível ir à qualquer lugar sem encontrar pelo menos um deles, nem que fossem daqueles menorzinhos com cara de bolacha que ela imaginava que fossem os filhotes.
Isso se aqueles seres realmente fossem bichos que pudessem ter filhotes.
Porque se fossem mesmo bichos, eram bichos tão... tão inúteis!
Os outros bichos dos quais ela tinha conhecimento pelo menos serviam para alguma coisa na grande cadeia alimentar do ciclo da natureza.
Agora, aqueles lá...
Eles apareciam, iam, vinham, faziam, aconteciam, desapareciam e não serviam pra nada.
Ela nunca havia realmente conseguido entender qual era o objetivo da existência daqueles seres tão grandes, tão desengonçados e tão sem-graça.
Vai ver que eles...
Observou então uma barata muito gorda e com aparência muito apetitosa.
Sem pensar duas vezes, resolveu deixar essas pseudo-filosofias de lado preparar-se para exercer mais uma vez o seu papel na cadeia alimentar.

"Fantasiando um segredo, o ponto onde quer chegar"

terça-feira, 17 de junho de 2008

Thing Think Thin

Estava calmamente mascando um chiclete de pensamentos abstratos quando alguma coisa lhe chamou a antenção.
Não saberia dizer exatamente o que era, só que era alguma coisa, e que era muito chamativa.
Olhou em volta.
Elefantes dançavam balé em um lago congelado, um grupo de cigarras reivindicava seus direitos trabalhistas em frente a um bolo de desaniversário, duas libélulas amarelas perguntavam-se por quê em inglês chamavam-se Dragonfly.
Que diabos seria aquilo que lhe chamara a atenção?
Balançou a cabeça e sentou-se num nevermind acolchoado.
Uma daquelas lagartas listradas que esperam um dia virar borboletas e te queimam se você for burro - ou teimoso - o suficiente para tocá-las rastejou em sua direção.
Um estalo de compreensão ocasionou um terremoto tímido, e ela percebeu.
Fora exatamente aquilo que lhe chamara a atenção.
(Só lhe resta agora descobrir se aquela é mesmo uma lagarta listrada ou se é só mais uma vez a sua visão regida pela Lua fazendo tudo parecer mais psicodélico)
"I know I was born and I know that I'll die, the in between is mine"

sábado, 14 de junho de 2008

Diálogo

- Tô de saco cheio.
- Saco cheio de quê?
- Hum. Sabe que eu não sei? Espera que eu vou olhar.
- Vá pela sombra! Os Zepelins estão atarefados, hoje.

*Alguns minutos depois*

- E aí, descobriu?
- Sim, sim! Tô de saco cheinho de bolinhas de gude cor-de-laranja.
- Puxa, maneiro, né?
- Na verdade não.
- Imaginei. As verdes-limão são bem mais cheirosas.
- É.
- Vamos fazer alguma coisa pra passar o tempo?
- Pra quê? Ele vai passar, independente da gente fazer ounão alguma coisa.
- Ah, mas quando estamos fazendo alguma coisa ele parece que passa mais rápido.
- Você acha isso legal?
- Como assim?
- Que o tempo passe mais rápido?
- É...
- Você quer morrer mais rápido?
- Na verdade eu gostaria de não pensar sobre isso.
- Sabe, eu também. Vamos beber alguma coisa bem alcoólica?
- Ah, é claro! Os guarda-chuvas cintilantes estão muito convidativos, hoje.

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Sobre aquilo que eu queria muito escrever mas não sei o que é


Ah, que horror.
Tem coisa pior do que querer escrever, mas não ter inspiração?
Bem, até tem; mas no momento...
As palavras estão ali; vejo-as dançando conga com macacos vestidos de bailarinas e voando nas costas de besouros verdes encapuzados.
Mas, por Zeus, não consigo escrevê-las!
Hum.
Eu estou escrevendo, agora; é verdade.
E isso são palavras, não são?
São; com certeza são.
Ah, que ótimo, estou escrevendo!
Bem.
Na verdade não são as palavras que eu queria escrever.
Não são aquelas, lá, que dançam e voam, sabe?
Não, são outras, completamente diferentes.
São mais... menos.
Entende?
Não?
Ah, que coisa.
Eu também não.

"Oh, Lord, won't you buy me a Mercedez-Benz?"

segunda-feira, 26 de maio de 2008

Na cabana da Bruxa Caolha de Manskaoosin

Fragmentos de pensamentos pouco pensados jazem caídos no chão, pesados, respirando com dificuldade.
Alguma coisa que deveria ter sido dita e não foi se encolhe tímida em um canto escuro da sala.
Situações que deveriam ter acontecido e não aconteceram fumam cachimbo, cabisbaixas, sentadas no sofá.
Outras tantas que realmente aconteceram espiam de olhos arregalados através da janela dos fundos.
Várias coisas que não deveriam ter sido feitas, mas foram, tomam sua segunda garrafa de uísque barato enquanto jogam truco na mesa da cozinha.
Idéias desligadas permanecem penduradas na parede, sem bateria.
Sentidos sem-sentido batem-se uns aos outros e chocam-se nas paredes, escorridos, intensos, fugazes, perdidos.
Uma impetuosidade inconseqüente brinca despreocupadamente com o fogo da lareira.
Uma força de vontade fraqueja na tentativa de abrir a porta que dá para a rua.
Uma garota de cabelos roxos observa a cena, de fora, e, após alguns minutos, decide ser mais sadio tomar uma xícara de café e deixar que isso tudo se resolva da forma como quiser se resolver.


"Faz parte do meu show"

domingo, 18 de maio de 2008

Só.

É.
Eis que, após tanto tempo de abstinência textual, cá estou eu, novamente, ressurgindo das cinzas enevoadas da Paulicéia Desvairada e postando aqui.
Mas não tenho nada pra dizer.
Então...
Só.

quinta-feira, 24 de abril de 2008

O fusca cor-de-rosa


Era um fusca cor-de-rosa.
Nada de mais, apenas um fusca. Um fusca dor-de-rosa.
Foi encontrado no bairro de Santa Teresa, no Rio de Janeiro.
O estofado era branco, assim como a direção.
E as janelas eram pequenininhas.
No mais, era um só fusca.
Só que um fusca cor-de-rosa.
Era um fusca cor-de-rosa.
E o que tinha de tão especial este fusca cor-de-rosa?
Bem...
Ele era cor-de-rosa.
Ora, era um fusca cor-de-rosa!

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Epifania

Uma cidade, uma bairro, uma rua.
Gente, fumaça, barulho, carro, ônibus, caminhão, prédio, ponte, avião, muro.
Pessoas cabisbaixas, isoladas em seus mundos particulares, apreensivas, apressadas, tristes, bravas, correndo, correndo, correndo.
Uma escadaria suja, poças líquidas com procedência desconhecida, alguma palavra ilegível pintada na parede.
Cinza, chumbo, asfalto, branco, preto, marrom, amarelado, esverdeado, desbotado, cor-de-rosa.
Cor-de-rosa?
Flores cor-de-rosa chapadas num céu incolor, emolduradas por estruturas acinzentadas, seguras por cordas emborrachadas e observadas por mentalidades metálicas.
Tudo pareceu fazer sentido, ficar colorido, ser desigualmente igual, anormalmente perfeito e perfeitamente anormal.
Segundos de uma visão única, muito movimentada e completamente parada, destoante, deslumbrante, desoladoramente fugaz.
No momento seguinte era só um mais um ipê cor-de-rosa florescendo em meio a prédios e carros na cidade de São Paulo.

...

"Você é bem grandinho, já pode se cuidar/ Ir seguindo seu caminho, sempre errando até um dia acertar"

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Episódio de Coração Gelado

. Coração Gelado estava apoiado na grade de sua varanda circular, no alto da Gloriosa Torre de Marfim, fumando um cigarro e observando, melancólico, a paisagem ao seu redor.
. - Coração Gelado!! – gritou-lhe uma voz vinda do jardim. Era Sigmund Solfieri, Jardineiro-Mor dos Castelos de Manskaoosin.
. - Sigmund!
. - Coração Gelado! Disseram as más línguas que o senhor havia derretido.
. - Pois é. Endureci, de novo. O passado se repetiu, a Rotina se instalou na minha poltrona favorita... E eu cansei – acrescentou, soltando anéis de fumaça.
. - Hum. Posso fazer alguma coisa pelo senhor?
. - Na verdade pode, sim. Suba aqui, acompanhe-me numa bebedeira.
. - Ora, com todo o prazer!


"Eu vejo o futuro repetir o passado, eu vejo um museu de grandes novidades..."

segunda-feira, 31 de março de 2008

Besteirol

Ó, céus!!
Por quê cargas d'água eu fico completamente sem inspiração nesta época do ano?
Estive lendo alguns textos meus dos últimos anos. Por algum motivo obscuro - mais ou menos parecido com aquele que explicaria o porquê do poste de luz que há ao lado da estação de metrô do Campo Limpo sempre apagar (ou acender, se antes da minha gloriosa passagem ele estivesse aceso) quando estou passando alegre e saltitante (bem, às vezes nem tão alegre e saltitante assim) por baixo dele, bem como fazia antigamente o poste de luz da rodoviária de São Pedro - fico em crise pelos meses de Março e Abril.
Sei lá, vai ver as energias astrais não me são criativamente favoráveis.
Energias astrais...
Vai ver são as minhas energias astrais que acendem ou apagam os postes de luz!
Isso, grande Karol!
Você deveria ganhar um prêmio Nobel por isso, e... hum.
Energias astrais não seriam aquelas vindas dos astros?
Hum, devem ser as minhas energias VITAIS, então.
Vital vem de Vida, não é?
Então pronto, são as minhas Energias Vitais que fazem os postes acenderem ou apagarem.
E por quê, então, não são todos os postes de luz os afetados?
Ah, vai ver que as minhas Energia Vitais são muito seletivas, preferindo influenciar somente aqueles postes que consideram Especiais.
Obviamente eu não sei seu critério de seleção; é algo por demais importante para que minhas Energias fiquem divulgando por aí.
Sabe como é, se tal informação vazasse todos os postes iriam se portar como os Especiais, aí nenhum seria mais verdadeiramente Especial; Especiais seriam aqueles que fossem exatamente o oposto do conceito de Especial.
Isso geraria um caos tão profundo, tão denso, que acabaria por criar um novo Universo, fazendo com que o nosso Universo se desintegrasse, uma vez que não é permitido, de acordo com a Lei Universal do Universo, que dois ou mais Universos coexistam em uma mesma dimensão.
Tendo nosso Universo se desintegrado nessa suposição, o novo Universo, criado a partir do Caos gerado pelo conceito de Especial-Não Especial dos postes de luz que haviam em NOSSO Universo, acabaria por desintegrar-se alguns segundos depois, visto que o impulso gerador de seu Universo não existiria mais.
É claro que poderia haver uma fusão entre o nosso e o novo Universo, mas isso acabaria por gerar um ciclo de criação-destruição que só poderia cessar com o sacrifício de um humano, e, como todo o mundo sabe, humanos não são muito favoráveis a esse tipo de coisa, apesar de gostarem de se matar uns aos outros de vez em quando.
É, pois é.
Hum.
Assumindo que são minhas Energias Vitais que acendem/apagam os postes de luz indefesos, devem ser elas as responsáveis pela minha falta de inspiração nesta época do ano.
Talvez esses meses sejam seu período de hibernação, para que recarreguem as baterias. Eu devo fazê-las trabalhar muito durante o ano.
Ou, então, estão ocupadas demais atualizando seu conceito de Postes Especiais e não podem me dar a devida atenção.
É.
Pode ser.
Ou não.
Ah...
Alguém quer alguns amendoins?

"Minha força não é bruta/ Não sou freira nem sou puta"